hubble me

09/10/2009 por michelccc

Tão longe, tão perto… tão perto, tão longe

Hubble Photos

08/10/2009 por michelccc

Eu e Jé no último fim de semana na praia da Baleia…

Baleia_Out2009

Baleia_Out2009_

07/10/2009 por michelccc

É o que me interessa – Lenine

06/10/2009 por michelccc

El negro del blanco – Paulo Moura e Yamandú Costa

Luz e sombra

01/10/2009 por michelccc

Arte de Tim Noble e Sue Webster. Eles usam lixo encontrado nas ruas e com luz fazem da sombra a arte. Me gusta.

something else

24/09/2009 por michelccc

Já tinha colocado a versão do Elvis e do James Brown. Faltava a do Frank… o Sinatra.

11/09/2009 por michelccc

Manuel,

Também estou farto do lirismo comedido e bem comportado
Já não quero agir da forma que esperam que o faça
Esta coisa toda tão protocolar. Não.
Meu dicionário é embriagado como eu
Sempre atropelo as palavras com gestos, mímicas e onomatopéias
Abaixo! La mala leche para los puretas!
Deixei de ser puro há muito tempo, desde minha primeira lágrima de perda, desde a primeira decepção que tive na vida
Meu ritmo varia entre o samba cambaleado da cachaça e a valsa de um sexo feito com amor
Não gosto de política e por futebol tenho pouco apreço
Encantam-me mesmo as mulheres e a noite, sobretudo quando a Lua está cheia
O dinheiro que tenho gasto com prazeres que me trazem emoção e gozo – eu chamo de felicidade
Pouco guardo para o futuro, mas tenho boas lembranças, amizades e amores verdadeiros
Estou de passagem pelo mundo, como todos aqui estão
De resto, tudo é poesia e imaginação – existe sim arte na vida
Por vezes me liberto, e então escrevo assim sem muito me preocupar…
Sou poeta como qualquer um que quer ser poeta
Simplesmente porque sinto e porque o silêncio me dói (não mudo mesmo)
E, se é através das palavras que posso me expressar, então assim será
Outras vezes sei que grito ou choro…
Porém, agora, escrevo.

11/09/2009 por michelccc

Poética
Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Presságio (micro-conto)

03/09/2009 por michelccc

Tive um presságio. Se vovó estivesse viva, diria que foi uma alma antiga que sussurrou no meu ouvido notícias do futuro.

O Jardim (mini-conto)

03/09/2009 por michelccc

Eram orquídeas de beleza rara e difícil trato, nem as mariposas se atreviam chegar nelas. Quando os ventos do norte surgiram impiedosos com seus sopros devastadores, os anjos de Deus desceram furiosos – tinham prometido protegê-las eternamente. Porém, ao cair da tarde, os ventos sopraram os anjos e as orquídeas para bem longe. Restaram apenas algumas mariposas sobrevoando aquele jardim.

The Beatles – We Can Work It Out

29/08/2009 por michelccc

“Life is very short and there’s no time for fussing and fighting..”

versão Stevie Wonder

28/08/2009 por michelccc

“Não há realmente desculpas por eu ter desperdiçado seu tempo – comecei. Na verdade, não tenho planos, nem projeto a propor. Contudo, não foi para bancar o tolo que entrei aqui. Há ocasiões em que se deve obedecer aos impulsos. Mesmo se isso lhe parecer estranho… depois de tudo o que lhe contei da minha vida… eu acredito, no entanto, que possa haver um lugar para um homem como eu neste mundo…”
Nexus – Henry Miller

conto

25/08/2009 por michelccc

Eu já tinha publicado este conto, hoje reli e resolvi publicar de novo, porque cada vez que leio acho mais foda.

Quando cheguei no bar, naquela tarde, ela já me esperava, aparentemente há algum tempo_ uma garrafa de cerveja jazia pela metade_ e sem ansiedade alguma. Assistia a um noticiário na TV e fumava um cigarro. Quando entrei, como se pressentisse minha presença, olhou para trás, viu-me, e sorriu discretamente voltando a olhar o televisor. Arrumou os cabelos, como quem não tivesse mais o que fazer nos segundos de espera entre eu na porta e eu ao seu lado., e talvez para me lembrar de que era mulher, penso eu.
Cumprimentei-a. Estava irrequieto, mas isso é algo que só agora, retrospectivamente, vejo com clareza.
Como sempre, minha amiga parecia bastante animada e confiante. Era comum que ao lado dela sentisse que sou daqueles homens que sofrem sem necessidade; sua forma pacífica e despreocupada de lidar com os acontecimentos me despertava uma incerteza profunda sobre a legitimidade de sua alegria. Desde sempre achei que o sofrimento fosse sinal de amadurecimento, que não levar as coisas a sério era uma evasão, uma fuga. Mas a ela estas filosofias não pareciam atingir, ainda que fosse alguém muito inteligente.
Pedi um copo. O que eu queria era mesmo dizer o quanto estava puto com a Suzana, chamar aquele velho de careca escroto, talvez agarrá-la pelos cabelos só por vingança. Mas não podia; aprendi, ou julgava ter aprendido como grande ensinamento, que é no comedimento e parcimônia que se encontram os atos mais sábios. E que, ainda que nos custe uma repressão inefável, é nos gestos mais sutis que se demonstra superioridade e calma.
Perguntei como ela estava. Ela me disse que ia bem, trabalhando muito. Como uma puta no carnaval, foi a expressão que usou, e que me fez rir. Uma vulgaridade desculpada. Fiz mais uma ou outra pergunta. Enquanto gesticulava para que o garçom nos atendesse, ela quis saber de mim:
_ E você querido, como anda?
_ Eu vou indo.
_ Aonde?
_ Como?
_ Vai indo aonde?
_Ah… Não é… É que eu e a Suzana, sabe, não sei, tá meio complicado.
_ Vocês brigaram.
Não foi uma briga, era isso que eu queria dizer, era isso que tentei dizer entre um gole e outro. A Suzana nos últimos tempos tinha dado para acusar-me, com freqüência, de ser infantil. Um dia, por ocasião de uma crise de ciúme, chamou-me mesmo de fraco, e virou-me a cabeça quase me dando um tapa com seu rabo de cavalo. Suzana tem cabelos pretos e bem grossos, e anda, comumente, com roupa de ginástica.  O problema, eu estava certo, no entanto, era com ela. Estava insegura quanto ao futuro, vivia ansiosa e tomava vez ou outra um Rivotril. Não era assim que se resolviam as coisas, eu tentei alertá-la, mas ela já não me ouvia.  Por fim, numa sexta-feira, demorou a atender o celular, depois atendeu muito incomodada e disse que estava na Ioga, que não ia deixar o celular ligado na Ioga, que ninguém deixava o celular ligado na Ioga. Não fosse o bastante chamou o professor de Estética, um senhor de quase sessenta e sem cabelos, para um café. Quando cheguei para pegá-la, estava rindo. O que tem a dizer de engraçado um professor de Estética?
Ela ouvia cuidadosamente. Sua atenção era tanta, que por alguns momentos sentia que era, apesar de uma atitude muito nobre, uma desproporção.
Quando fiz uma pausa, esticou os olhos e suspirou.
Talvez fosse falar alguma coisa, mas eu a interrompi porque lembrei de acrescentar algo muito importante.
_ E eu respeito muito a Ioga. Fiz um curso de Budismo, uma vez, lá na faculdade. Eu sei que não dá para deixar o celular ligado, não foi isso que quis dizer. E também não tenho nada contra o professor de Estética. Tirei oito num trabalho dele, ele me adorava. Eu me formei dois anos antes dela, ela esquece que não sou nenhum idiota.
E fui me inflando. Tomava fôlego,. Estava agora convicto. Eu era um puta de um homem, um intelectual, trabalhador e politizado. Quando eu a conheci, alguns anos antes, parecia ser tudo de que ela precisava.  E se ela terminasse comigo haveria outras mil que me quereriam, outras mais maduras, menos meninas, com menos fogo no rabo, foi a imagem que me veio.
Minha amiga ficou mole na cadeira, de repente, como quem estivesse com preguiça de comentar o caso.
Eu parei por um instante. Ela bebia cerveja mais rápido do que eu.
_ E o plano de morar junto, não deu certo?
Eu havia comentado com ela que eu e a Suzana queríamos alugar um apartamento. Fiquei um pouco envergonhado.
_ É que com tudo isso…  E eu estou meio sem emprego, sem nada fixo, eu quero dizer, estou sempre fazendo alguma coisa, mas não dá para contar isso.
_ Sei. Meu apartamento está uma gracinha. Fica aqui do lado. É espaçoso, mas não tem vista. Sabe como é, não se pode ter tudo. Você toma mais uma?
Claro que eu tomava. Agora, no auge de minha indignação, sabendo que estava sendo injustiçado, que estava me passando por ridículo, não voltaria para casa tão cedo. Nunca mais talvez. A Suzana ia ver só.
Precisei ir ao banheiro.
Já no caminho comecei a pensar em uma série de coisas inteligente para dizer. Coisas ao meu respeito, coisas que provavam que não sou infantil, que tenho personalidade, cultura.
Lembrei-me então de uma história maravilhosa que ia mudar todo o rumo da conversa. Fiquei animado e corri de volta à mesa.
Tentei disfarçar que já vinha com algo pronto do banheiro.
_ O que está passando na Tv?
_ Os gols da rodada_ E ficou toda graciosa_ Adoro futebol!
_ Mas então, é complicado. A vida é mesmo uma merda, né?_ Eu sorri.
Eu lembrei de uma coisa que acho que ilustra bem o que sinto. Você já leu Esopo? (Neste momento acho que riu um pouco, não sei ao certo). Então, tem uma fábula, não lembro agora o nome. Mas é uma em que os carvalhos dizem a Zeus:
_ De que adiantou nos dar a vida? Estamos muito mais expostos a morrer sob o machado do que as outras árvores. Estavam reclamando, sabe? Então Zeus respondeu: “Vocês mesmos são os responsáveis sobre sua desgraça. Se não produzissem os cabos dos machados, e não fossem úteis aos carpinteiros, não seriam abatidos”, ou algo assim. O moral é assim, “Não acuses os Deuses…” como é que é mesmo? “Não acuses os Deuses pelos males por que és responsável”. Entendeu?
Ela olhou-me fixamente nos olhos. Sorriu. Acedeu mais um cigarro. Com a voz sufocada de fumaça na boca, disse: _Olha_ e soltou a fumaça, que foi indo, indo, deixando o ar todo enevoado. E recostou o corpo pra frente como se fosse me contar um segredo.
_ Eu vou agora lhe contar uma história. É sobre um elefante e uma formiga.
Fiquei excitadíssimo.
_ Um elefante e uma formiga conviviam na natureza. Um dia, por um motivo qualquer, contrariaram-se. Inevitavelmente entraram numa briga. Adivinha quem ganhou?
Então vamos lá, pensei eu, o elefante, a formiga, conviviam na natureza, ela disse…
E fui interrompido pela resposta.
_ O elefante.

Autora: Milena Carasso

são genésio

25/08/2009 por michelccc

22/08/2009 por michelccc

19/08/2009 por michelccc

O mar anda tão distante que por vezes me olvido do som que faz.
Lembro que eu passava a arrebentação e mergulhava lá no fundo para sentir o geladinho das correntes frias que passam no sentido contrário das ondas. Ficava imaginando que se eu seguisse estas correntes iria parar em alto-mar, junto com os tubarões e todos os bichinhos estranhos que habitam os oceanos. Eu iria me tornar um deles. Um bicho estranho do oceano envolto de água salgada, assim como num choro triste se fica. Lá no mar, eu boiava tranquilo também. Depois do mergulho, eu subia para a superfície, respirava fundo e me quedava ali mirando o céu azul e calculando quando tempo tardaria para que eu fosse levado pela corrente, ou até a areia ou para alto-mar. Quando se está flutuando os ouvidos ficam submersos e é possível apenas escutar aqueles sons de fundo do mar.
Uns estalos.

19/08/2009 por michelccc

Tem uma música nova que fica tocando dentro da minha cabeça. Eu não entendo a letra desta música, nem sei se quero entender. Eu quero apenas que ela toque na minha cabeça, sem que eu tenha que pegar meu violão e ficar vibrando as cordas com meus dedos. Eu quero apenas que ela toque aqui na minha cabeça, sem que eu tenha que cantar o refrão e todas as estrofes infinitas.

13/08/2009 por michelccc

Reflexos

e estes singelos sorrisos
dos filhos que ainda não tive
que surgem em alguns sonhos meus?

talvez sejam meus os sorrisos
lembrando-me ainda menino
mirando sorrirem meus pais…

e agora com os olhos adultos
buscando meus tempos de paz
esboço um sorriso maduro
me enxergo no olhar dos meus pais.

13/08/2009 por michelccc

baile de algazarras

era assim,
como o susto para o soluço
ou o luto para a morte…

vinha um silêncio prolongado
agarrado a um toque de não me toque
tipo um tipo de muito pouco
com um tanto de quase nada

e estas poucas palavras,
e a cachaça para o bom bebedor
e o exílio
a janela da alma
o espelho
os segredos como a gota do veneno.

Something more…

04/08/2009 por michelccc

Mais duas versões de Something. Dizem que até hoje ele não aprendeu a letra… Mas como é o Elvis, tá beleza! hehhe

Something by James Brown

21/07/2009 por michelccc

07/07/2009 por michelccc

classe!

Watchmen e Trust

06/07/2009 por michelccc

watchmen_poster16

Achei legal. A trilha é boa e os efeitos também. Para um domingo-ressaca tá valendo.

trust

Adoro o filme, revi neste final de semana. Tenho todos os longas do Hal Hartley, Trust e Henry Fool são os que mais gosto. Ainda não identifiquei exatamente porque tenho tanta simpatia por seus filmes. Geralmente são personagens bizarros e diálogos profundos e diretos, e sempre surgem elementos imprevisíveis que ele insere nas tramas, como a granada que o protagonista de Trust carrega no bolso. Como o nome diz, acima de tudo, o filme fala sobre confiança.
Outro filme muito bom dele é Amateur.

The Beast and The Beauty

04/07/2009 por michelccc

Emplacava o quarto dia sem comer. Não era a primeira vez, mas estava agora mais velho, e esses jejuns mais longos começavam a incomodar. Sua última refeição não tinha sido um banquete. Os parcos restos de uma jovem gazela, que tinham ainda lhe custado um belo entalhe na pata posterior direita; os caninos de uma hiena, eram quatro ou cinco, mais uma vez teve que ser na porrada. As coisas não estavam vindo fácil nos últimos tempos.

Não tinha ainda as alucinações que havia experimentado algumas semanas ou meses atrás, quando por conta de um embate virilmente acirrado com um rival perdera um canino inferior e ganhara uma infecção de rinoceronte. Naquela ocasião sofreu de febre por seis dias e por seis dias não comeu. Até que ao final do sexto dia, com a ajuda do crepúsculo, a febre cedeu, arrefeceu, a alucinação passou, fincou as quatro patas no solo seco da savana, levantou a cabeça, chacoalhou a juba, rugiu e, em menos de meia hora havia engolido um filhote de gnu inteiro.

Agora ainda não alucinava, mas já embaralhava os odores e as idéias. Passou o dia perambulando em vez de descansar e esperar o momento propício. Fez ida e volta beirando o rio durante horas na esperança de cruzar uma manada, ainda que soubesse que não viria manada alguma antes do entardecer. Não havia desespero, simplesmente uma certa impaciência, misturada com um jogo estranho, dele com ele mesmo, de testar a resistência da corda, de empurrar um pouco a situação, alargando as bordas dos limites. Gastou a energia que não podia, subiu e desceu pequenos morros e rochedos, apreciou suas patas enquanto esculpia sulcos em troncos de Baobás. Quantas presas não tinha dilacerado com apenas um bom e preciso golpe destas potentes patas? Quantas fêmeas não havia deitado, dobrado, com a força e destreza destas patas? Gastou algum tempo observando pequenos animais, pássaros, insetos, patos selvagens, serpentes… Não entendia muito aquilo tudo, seres inúteis para ele, não eram presas, nem concorrentes. Tinham lá seu charme, pensou. Aparentemente tinham eles também uma rotina, vontades, sentimentos, instintos. Reparou que também caçavam, alguns, outros fugiam, outros comiam plantas. Haveria maneira de se comunicar com eles? Todos fugiam, à simples aproximação das patas, as passadas, e os pequenos animais se afastavam.

Enfim chegou o entardecer e com ele os antílopes. Havia ainda suficiente sobriedade. Escolheu a moita e sumiu feito soldado camuflado. Agora era a espera, a partida de xadrez, a paciência a serviço do deleite – ou da sobrevivência? Acendeu todos os sentidos, ligou tudo no máximo. Escutava a algazarra contida do desalterar em bando. Buscava distinguir os grunhidos dos filhotes no meio da manada. Içava ainda mais as orelhas a fim de captar o chamado de uma mãe ao filhote que ameaçava se desgarrar… fungava até o âmago buscando o resquício de um bichano mais frágil, o odor do medo, da fragilidade, do sangue… Com o olhar de lanternas percorria o bando de ponta à ponta no aguardo de um mínimo deslize, aquele que mancasse um pouco…

Estranhamente ficou inerte. Sentiu como se algo o abafasse, qual um peso intenso nas costas. Manteve o ventre rente à terra, e não se moveu. Preocupou-se. Não iria conseguir caçar? O quê estava acontecendo? Que paralisia… talvez com alguma ajuda? Nenhuma ajuda? Onde estavam os crocodilos, os leopardos, as malditas hienas… Mas teria forças para brigar? Para arrancar do mundo a sua parte? Os sentidos foram recolhendo-se, foram perdendo a tensão. E adormeceu. Profundamente.

Despertou somente horas e horas depois, na noite do dia seguinte. Aí tudo já era delírio. Os sons, os odores, o frio – nunca tinha sentido frio – tudo estranho e diferente, misturando-se, confundindo-se. Tinha ao menos que beber, o rio ali do lado, as patas respondiam com dificuldade. Cambaleou até a margem, sorveu o que podia, desajeitado, molhando a juba toda… Um rebuliço de crocodilos. Teve vontade de enchê-los de patadas, arrebentar com aqueles répteis filhos da puta, bichos burros e sem classe, um dia comerei os seus filhotes… nojentos!

Vagou sem rumo. Na primeira espiada do sol da manhã sentiu um odor diferente. O vento trazia, era bicho frágil, não conhecia aquele cheiro, era doce e leitoso, vinha junto o cheiro de homem, vinha do noroeste, deviam estar a quanto? Umas 2 milhas no máximo… e foi.

Quando pôde avistá-los o odor já era massacrante. Voltou. Voltou com tudo. A fome. Puta que o pariu que fome, ficou até com tesão. Despertou, despertou completamente e vestiu-se de sua fortaleza; O Leão rugia por dentro enquanto o grupo de ovelhas atravessava sua planície. A proteção dos pastores, armados até os dentes. Leão não podia mais, rangia os dentes, andava de um lado para o outro, cavava buracos enormes com suas bolachudas patas. A tensão de leão do Leão transbordava, aumentada pelo calor e pelos vários dias de fome. Leão tremia, mas não de um tremor de medo, nem um tremor saudável de excitação e ansiedade. Tremia de fúria incontida. Babava, suava. Era leão e não podia controlar seus mais profundos instintos.
Leão olhou fixamente para o rebanho que encontrava-se a uns 80 metros. Retesou os músculos do corpo inteiro, e descansou sua alma. Partiu radiante, a juba balançando ao vento, acompanhando o movimento dos saltos. A velocidade controlada, as passadas seguras, potentes. Cena grandiosa, de rara beleza. O estrago não contava naquele momento. Nem mesmo a fome. Tudo era ato. O Leão era ato… estupendo. Tudo do Leão, tudo de leão, resumido em alguns segundos de beleza. Avançando, agora livre, guiado pelo cheiro, pelo som que o vento trazia, pelo costume, pelo desejo, pelo instinto, pela sua própria razão de ser. Não importavam os tiros das carabinas em sua direção, sentia apenas o odor do terror que as ovelhas exalavam, e como não podia deixar de ser, o néctar inebriante do gosto do sangue. Leão não sabe, mas foi abatido, feliz, leão, integralmente Leão.

Há uma outra versão que vez em quando pode ser escutada na região. Esta conta que os pastores não tinham carabinas coisa nenhuma. Velhos cajados e olhe lá. Leão teria dilacerado, literalmente partido ao meio 3 homens, dos quais provou a carne mas cuspiu pois sentiu nojo. Depois, em instantes, teria devorado 27 ovelhas, sob o olhar aterrorizado de um dos pastores que havia sido poupado e das outras 73 ovelhas que completavam o rebanho. Nesta versão, após o banquete, Leão teria dormido num montinho de relva de barriga para cima ao sol escaldante, saciado, fatigado, despreocupado… nem as moscas ousavam incomodar seu sono… e que o sono trouxe seus sonhos de Leão.

Fiquemos nós com a primeira versão, que me parece menos cruel e sanguinolenta. Poupemos nossos pastores e pobres ovelhas. Além disso, este leão-maluco parece um bocado um conhecido nosso, aquele tal de lobo-mau, comedor de vovozinhas e porquinhos fofinhos. Não é mesmo???

Daniel Carasso

Um pintor

04/07/2009 por michelccc

Um pintor decorador, mas que não trabalhava mais porque começou a beber. E como a maioria das pessoas tristes e sensíveis, que começam a beber, virou alcóolatra, e ficou mais triste. Mas era também pintor, além de pintor decorador. E pintava bonito, pintava sensível. Não que tivesse grande técnica, nem que fosse um gênio autodidata, mas pintava bonito, pintava sensível.
Como as pessoas que bebem era só. Vivia só. Como as pessoas que bebem tinha dezenas de amigos, na grande maioria amigos noturnos, amigos bêbados. Como as pessoas que bebem precisava de amigos, mas na verdade, não tinha amigos. Buscava desesperadamente o contato, buscava afeição e carinho. Queria mais do que tudo no mundo ser ouvido, ser entendido, cuidado, mas sabia bem que ninguém o entendia, em parte porque falava enrolado, misturava as idéias e os assuntos, em parte porque os que o ouviam também eram sozinhos e também queriam desesperadamente ser entendidos.
Era chato como as pessoas que bebem, e muito inconveniente. Era repetitivo e não tinha limites. Era feio como as pessoas que bebem, ainda que guardasse um mínimo de higiene e de cuidado com suas roupas e seu visual, o que o tornava ainda mais patético.
E tinha sido abandonado pela mulher há alguns anos, como as pessoas que bebem. E via cada vez menos os filhos, que estavam crescidos, e que tinham pena do pai, mas que também tinham vergonha do pai, e que também tinham uma vida própria, e que também tinham angústias e momentos obscuros e procuras desesperadas, como as pessoas.
E morava num apartamento pequeno, que dividia ora com um amigo, ora com outro. E não conseguia pagar o aluguel como as pessoas que bebem, apesar do seguro desemprego. E dormia muitas vezes fora de casa e às vezes na rua. E às vezes acordava machucado, escoriado, esfolado. E perdia moedas e documentos, como as pessoas que bebem.
E tinha os olhos sedentos quando via mulheres. E tinha o dom de falar delas como se fizesse poesia e falasse de anjos. E não tinha mais ereções e não dava mais beijo de língua.
E tinha os dedos amarelos e as unhas pretas, e tinha dores de estômago e de cabeça intermináveis. E tinha os dentes feios e cada vez mais escassos, e tinha hemorróidas e diabetes. E tinha o coração inchado e o fígado enferrujado. E tinha um projeto de câncer que daria um jeito em toda a bagunça, em segredo, sorrateiramente.
E tinha lembranças lindas que não queria lembrar.
E tinha telas lindas de mulheres redondas nuas ou seminuas, e tinha telas lindas de maçãs ou laranjas ao lado de um vaso, e tinha telas lindas de um senhor calvo e muito bem vestido, e tinha telas lindas de uma paisagem da região de Sartre.
Era um pintor decorador, mas que também era um pintor, simplesmente pintor, e pintava bonito e pintava sensível, e tinha telas lindas empilhadas num canto do quarto, entorpecidas pelo cheiro de cachaça.

Daniel Carasso

Lá em cima os Urubus

04/07/2009 por michelccc


Do dia que eu sentei ali, na toca do pé do prédio na rua São Bento, não levantei mais. Grudei igual que piche, que super-bondi que cola de tudo.
De sol e de vento eu ficava ali, sentado. De a chuva molhosa grudou raiz e eu a ver passar. De tudo passava, de muito joelho e sapato também. Que eu gostava mais que passava é saia; e as perna infinita, pontando pro céu. Ou então que nem raio, furando no chão. Passava salto, bicudo, de agulha; passava tropeço, passava uns arrasto de sandalia véia. Às vezes calava e não passava nada, só luz de lanterna e barata zureta.
Se eu não levantava é porque não precisava. Chegava de tudo sem nenhum pedir. Vinha uns gravatão mais bonito que cobra, que chegava perto mas ficava longe, e saía moeda, vez em quando nota. O Gordo pegava, dançava, sumia. E voltava. Voltava vermelho, risando que só, qual que maritaca, parecendo o sol. E era um anjo meu, já me dava o leite de matar minha sede, e sentava ao lado, sem fazer frescura. Me contava os causo que nós dois se ria, soviava as moça que sempre xingava e depois roncava pra chamar meu sono.

Lá pra cima era só janela. Mais que mil que eu nem contava, acendida de dia, apagada de noite. E eu imaginando o que escondia dentro. Que um dia me disseram que ali matutava só homi aprumado; os divogado, e também banqueiro.

Pra noite fria tinha os foguinzinho de lata, de cheirinho bom. Que chamava o bando, que se aconchegava, tipo assim de roda, pra girar garrafa; mão na mão, pra todas as bocas.

Lá pra fim de ano que é de Deus menino tinha as luz de festa, brilhantando à noite, até de toda as cores. Tinha mais comércio, formigando a rua. Que eu nada entendia dessas venda toda, mas que me gostava. “Tem cinto de couro! Tem pulseira, colar, quase de ouro! Tem os brinquedinho, mexendo sozinho, rodante, falante; três pagando dois.

Té que um dia veio uns homi grande, de bigode baboso, feito cão com raiva.

Só não rueram minha alma, que essa escapuliu pra cima feito rojão. Subiu subindo levezinha, sem dar conta lá de baixo, que se apequinava tudo. Foi dobrando os urubus, soltinha, ventosa. Foi mais alto que os prédios da São Bento

E só se quietou quando avistou o Gordo. Assentadão que tava, igual de sempre, o barrigão peludo, seis dedo vez de dez, o bonezinho do Parmeiras, se apagando. E riando, riando. Riando que não respirava. Nunca mais arrespirou.

Daniel Carasso

2a cine-feira

23/06/2009 por michelccc

Estamira de Marcos Prado

estamira

Le premier jour du reste de ta vie de Rémi Bezançon

18949328

17/06/2009 por michelccc

“…The female that loves unrequited sleeps,
And the male that loves unrequited sleeps;
The head of the moneymaker that plotted all day sleeps,
And the enraged and treacherous dispositions sleep.

I stand with drooping eyes but the worstsuffering and restless,
I pass my hands soothingly to and fro a few inches from them;
The restless sink in their beds…they fitfully sleep.

The earth recedes from me into the night,
I saw that it was beautiful… and I see that what is not the earth is beautiful.

I go from bedside to bedside… I sleep close with the other sleepers, each in turn;
I dream in my dream all the dreams of the other dreamers,
And I become the other dreamers.

I am a dance… Play up there! the fit is whirling me fast…”


Trecho de Folhas de Relva – Walt Whitman

poesia web 2.0.

17/06/2009 por michelccc

SEO o mundo um dia parar de girar
E com o click numa tag a gente conseguir voar
Por quais bandas largas iremos navegar?
Será que irão nos cobrar? Por CPC, por CPM ou por CPA?
Em que landing page iremos acabar?

SEM um link em evidência, nesta busca orgânica
Quem irá nos patrocinar?
E se os posts do meu blog ninguém comentar?
A Blogosfera inteira de mim irá caçoar…
Em nenhum bookmark eu irei estar
E o meu CGU ninguém vai notar…

Mas e se um dia um RSS me alimentar?
E em um Mush-Up de idéias eu conseguir viralizar
Uma porção de conteúdo eu irei proporcionar
Tudo Open Source pra todos que quiserem usar

Imaginem, até na Wiki eu vou estar
Num Orkut ou Facebook qualquer irão me elogiar
O meu Twitter terá mais seguidores que Alá
E minha cauda longa, orgulhoso, poderei abanar!

17/06/2009 por michelccc

lobo

Caminho pela noite observando tudo que uma visão limitada permite ver. O faro deste lobo solitário é aguçado, mas fragrâncias desconhecidas confundem o aroma que brota das margaridas com o cheiro dos crisântemos vermelhos. Este Eu, lobo solitário, segue no escuro tateando formas de prazer que me iludem. A Lua já está escancarada, parece nervosa mostrando toda sua ira, refletindo tanta luz. Ela eu não temo, sempre foi companheira da minha solidão e dos meus sonhos, carregou e protegeu-me por léguas sem nunca se queixar ou reclamar do meu silêncio. Talvez leia minha mente, siga meus passos e pensamentos, talvez goste de mim…