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3 Dez

Henry was not a kid. He was a simple man. A fool with trust but no ambition. In his book of life there was no surviving desire. He was an amateur. He tried to flirt the cartographer’s girlfriend. No such thing could make him forget the girl from monday. The unbelievable truth was that his theory of achievement was wrong. Iris treated him like these lost dogs at the streets. His adventure was not even close of being an opera. That’s a fact.

The Beast and The Beauty

4 Jul

Emplacava o quarto dia sem comer. Não era a primeira vez, mas estava agora mais velho, e esses jejuns mais longos começavam a incomodar. Sua última refeição não tinha sido um banquete. Os parcos restos de uma jovem gazela, que tinham ainda lhe custado um belo entalhe na pata posterior direita; os caninos de uma hiena, eram quatro ou cinco, mais uma vez teve que ser na porrada. As coisas não estavam vindo fácil nos últimos tempos.

Não tinha ainda as alucinações que havia experimentado algumas semanas ou meses atrás, quando por conta de um embate virilmente acirrado com um rival perdera um canino inferior e ganhara uma infecção de rinoceronte. Naquela ocasião sofreu de febre por seis dias e por seis dias não comeu. Até que ao final do sexto dia, com a ajuda do crepúsculo, a febre cedeu, arrefeceu, a alucinação passou, fincou as quatro patas no solo seco da savana, levantou a cabeça, chacoalhou a juba, rugiu e, em menos de meia hora havia engolido um filhote de gnu inteiro.

Agora ainda não alucinava, mas já embaralhava os odores e as idéias. Passou o dia perambulando em vez de descansar e esperar o momento propício. Fez ida e volta beirando o rio durante horas na esperança de cruzar uma manada, ainda que soubesse que não viria manada alguma antes do entardecer. Não havia desespero, simplesmente uma certa impaciência, misturada com um jogo estranho, dele com ele mesmo, de testar a resistência da corda, de empurrar um pouco a situação, alargando as bordas dos limites. Gastou a energia que não podia, subiu e desceu pequenos morros e rochedos, apreciou suas patas enquanto esculpia sulcos em troncos de Baobás. Quantas presas não tinha dilacerado com apenas um bom e preciso golpe destas potentes patas? Quantas fêmeas não havia deitado, dobrado, com a força e destreza destas patas? Gastou algum tempo observando pequenos animais, pássaros, insetos, patos selvagens, serpentes… Não entendia muito aquilo tudo, seres inúteis para ele, não eram presas, nem concorrentes. Tinham lá seu charme, pensou. Aparentemente tinham eles também uma rotina, vontades, sentimentos, instintos. Reparou que também caçavam, alguns, outros fugiam, outros comiam plantas. Haveria maneira de se comunicar com eles? Todos fugiam, à simples aproximação das patas, as passadas, e os pequenos animais se afastavam.

Enfim chegou o entardecer e com ele os antílopes. Havia ainda suficiente sobriedade. Escolheu a moita e sumiu feito soldado camuflado. Agora era a espera, a partida de xadrez, a paciência a serviço do deleite – ou da sobrevivência? Acendeu todos os sentidos, ligou tudo no máximo. Escutava a algazarra contida do desalterar em bando. Buscava distinguir os grunhidos dos filhotes no meio da manada. Içava ainda mais as orelhas a fim de captar o chamado de uma mãe ao filhote que ameaçava se desgarrar… fungava até o âmago buscando o resquício de um bichano mais frágil, o odor do medo, da fragilidade, do sangue… Com o olhar de lanternas percorria o bando de ponta à ponta no aguardo de um mínimo deslize, aquele que mancasse um pouco…

Estranhamente ficou inerte. Sentiu como se algo o abafasse, qual um peso intenso nas costas. Manteve o ventre rente à terra, e não se moveu. Preocupou-se. Não iria conseguir caçar? O quê estava acontecendo? Que paralisia… talvez com alguma ajuda? Nenhuma ajuda? Onde estavam os crocodilos, os leopardos, as malditas hienas… Mas teria forças para brigar? Para arrancar do mundo a sua parte? Os sentidos foram recolhendo-se, foram perdendo a tensão. E adormeceu. Profundamente.

Despertou somente horas e horas depois, na noite do dia seguinte. Aí tudo já era delírio. Os sons, os odores, o frio – nunca tinha sentido frio – tudo estranho e diferente, misturando-se, confundindo-se. Tinha ao menos que beber, o rio ali do lado, as patas respondiam com dificuldade. Cambaleou até a margem, sorveu o que podia, desajeitado, molhando a juba toda… Um rebuliço de crocodilos. Teve vontade de enchê-los de patadas, arrebentar com aqueles répteis filhos da puta, bichos burros e sem classe, um dia comerei os seus filhotes… nojentos!

Vagou sem rumo. Na primeira espiada do sol da manhã sentiu um odor diferente. O vento trazia, era bicho frágil, não conhecia aquele cheiro, era doce e leitoso, vinha junto o cheiro de homem, vinha do noroeste, deviam estar a quanto? Umas 2 milhas no máximo… e foi.

Quando pôde avistá-los o odor já era massacrante. Voltou. Voltou com tudo. A fome. Puta que o pariu que fome, ficou até com tesão. Despertou, despertou completamente e vestiu-se de sua fortaleza; O Leão rugia por dentro enquanto o grupo de ovelhas atravessava sua planície. A proteção dos pastores, armados até os dentes. Leão não podia mais, rangia os dentes, andava de um lado para o outro, cavava buracos enormes com suas bolachudas patas. A tensão de leão do Leão transbordava, aumentada pelo calor e pelos vários dias de fome. Leão tremia, mas não de um tremor de medo, nem um tremor saudável de excitação e ansiedade. Tremia de fúria incontida. Babava, suava. Era leão e não podia controlar seus mais profundos instintos.
Leão olhou fixamente para o rebanho que encontrava-se a uns 80 metros. Retesou os músculos do corpo inteiro, e descansou sua alma. Partiu radiante, a juba balançando ao vento, acompanhando o movimento dos saltos. A velocidade controlada, as passadas seguras, potentes. Cena grandiosa, de rara beleza. O estrago não contava naquele momento. Nem mesmo a fome. Tudo era ato. O Leão era ato… estupendo. Tudo do Leão, tudo de leão, resumido em alguns segundos de beleza. Avançando, agora livre, guiado pelo cheiro, pelo som que o vento trazia, pelo costume, pelo desejo, pelo instinto, pela sua própria razão de ser. Não importavam os tiros das carabinas em sua direção, sentia apenas o odor do terror que as ovelhas exalavam, e como não podia deixar de ser, o néctar inebriante do gosto do sangue. Leão não sabe, mas foi abatido, feliz, leão, integralmente Leão.

Há uma outra versão que vez em quando pode ser escutada na região. Esta conta que os pastores não tinham carabinas coisa nenhuma. Velhos cajados e olhe lá. Leão teria dilacerado, literalmente partido ao meio 3 homens, dos quais provou a carne mas cuspiu pois sentiu nojo. Depois, em instantes, teria devorado 27 ovelhas, sob o olhar aterrorizado de um dos pastores que havia sido poupado e das outras 73 ovelhas que completavam o rebanho. Nesta versão, após o banquete, Leão teria dormido num montinho de relva de barriga para cima ao sol escaldante, saciado, fatigado, despreocupado… nem as moscas ousavam incomodar seu sono… e que o sono trouxe seus sonhos de Leão.

Fiquemos nós com a primeira versão, que me parece menos cruel e sanguinolenta. Poupemos nossos pastores e pobres ovelhas. Além disso, este leão-maluco parece um bocado um conhecido nosso, aquele tal de lobo-mau, comedor de vovozinhas e porquinhos fofinhos. Não é mesmo???

Daniel Carasso

Lá em cima os Urubus

4 Jul


Do dia que eu sentei ali, na toca do pé do prédio na rua São Bento, não levantei mais. Grudei igual que piche, que super-bondi que cola de tudo.
De sol e de vento eu ficava ali, sentado. De a chuva molhosa grudou raiz e eu a ver passar. De tudo passava, de muito joelho e sapato também. Que eu gostava mais que passava é saia; e as perna infinita, pontando pro céu. Ou então que nem raio, furando no chão. Passava salto, bicudo, de agulha; passava tropeço, passava uns arrasto de sandalia véia. Às vezes calava e não passava nada, só luz de lanterna e barata zureta.
Se eu não levantava é porque não precisava. Chegava de tudo sem nenhum pedir. Vinha uns gravatão mais bonito que cobra, que chegava perto mas ficava longe, e saía moeda, vez em quando nota. O Gordo pegava, dançava, sumia. E voltava. Voltava vermelho, risando que só, qual que maritaca, parecendo o sol. E era um anjo meu, já me dava o leite de matar minha sede, e sentava ao lado, sem fazer frescura. Me contava os causo que nós dois se ria, soviava as moça que sempre xingava e depois roncava pra chamar meu sono.

Lá pra cima era só janela. Mais que mil que eu nem contava, acendida de dia, apagada de noite. E eu imaginando o que escondia dentro. Que um dia me disseram que ali matutava só homi aprumado; os divogado, e também banqueiro.

Pra noite fria tinha os foguinzinho de lata, de cheirinho bom. Que chamava o bando, que se aconchegava, tipo assim de roda, pra girar garrafa; mão na mão, pra todas as bocas.

Lá pra fim de ano que é de Deus menino tinha as luz de festa, brilhantando à noite, até de toda as cores. Tinha mais comércio, formigando a rua. Que eu nada entendia dessas venda toda, mas que me gostava. “Tem cinto de couro! Tem pulseira, colar, quase de ouro! Tem os brinquedinho, mexendo sozinho, rodante, falante; três pagando dois.

Té que um dia veio uns homi grande, de bigode baboso, feito cão com raiva.

Só não rueram minha alma, que essa escapuliu pra cima feito rojão. Subiu subindo levezinha, sem dar conta lá de baixo, que se apequinava tudo. Foi dobrando os urubus, soltinha, ventosa. Foi mais alto que os prédios da São Bento

E só se quietou quando avistou o Gordo. Assentadão que tava, igual de sempre, o barrigão peludo, seis dedo vez de dez, o bonezinho do Parmeiras, se apagando. E riando, riando. Riando que não respirava. Nunca mais arrespirou.

Daniel Carasso

17 Jun

lobo

Caminho pela noite observando tudo que uma visão limitada permite ver. O faro deste lobo solitário é aguçado, mas fragrâncias desconhecidas confundem o aroma que brota das margaridas com o cheiro dos crisântemos vermelhos. Este Eu, lobo solitário, segue no escuro tateando formas de prazer que me iludem. A Lua já está escancarada, parece nervosa mostrando toda sua ira, refletindo tanta luz. Ela eu não temo, sempre foi companheira da minha solidão e dos meus sonhos, carregou e protegeu-me por léguas sem nunca se queixar ou reclamar do meu silêncio. Talvez leia minha mente, siga meus passos e pensamentos, talvez goste de mim…

kind life

5 Jun

Don’t you find life is unkind?
Sem dúvida, mas…
Yes, I know, all those roses around…
E as pedras no caminho
It’s a long way
Você sabe, depois daquela história…
You should forget
Ou não…
Have you seen her lately?
Quem?
Yes, I know
Está tudo tão confuso…
Have I told you I lost someone?
Eu também perdi alguma coisa… também achei outras…
I’ll take another one
Duas por favor!
We did some medical exams, apparently she can’t have a baby
A vida é um circo, ou um círculo, não sei
You’ve lost some hair man
Não vejo a hora de tirar férias… Já quase 2 anos…
Do you remember?
De bastante coisa, mas parece um trailer fora de ordem
Yes, I know
Joguei fora dois terços das fotos
I had this strange dream this weekend… I was deaf
Mas você se lembra de antes?
Of course, It was so special
Me conte um pouco, as coisas boas
Ok, let me close my eyes… Go on

Eu larguei minhas roupas na beira do rio e mergulhei. Fiquei alí dentro 6 horas. Estava um calor do Zimbábue. Lavou tudo, quase virei peixe.
Yes, I know, water is so great, do you remember that one who wanted to have gills?
E asas também, lembra? E?

Only the first kiss and I still have the scar in my back. She swallowed me. A Spanish girl.

Quatro da manhã, estava tocando “Dancing Queen” do ABBA, eu vi o rosto de Deus. Em Barcelona.

The first breath… she took 5 seconds to cry… infinity. Then I cleaned her cheeks and nose.  I can’t believe I was there

Simplesmente arrastei a arraia de volta pro mar. Era pesada e viscosa. Ela se foi sorrindo.

My father’s warm and sweet hands. Never been so secure.

Ubatuba e uma bebida com canela… esqueci o nome… eu tinha 18 anos… 18 anos, meu Deus.

Getting closer, slowly, patiently, like a silent battle, forgiving a few past mistakes, rediscovering, getting closer to the mirror… be able to hold and help my brother.

Indescritível… chegar até o fim… depois a composição pronta… Sua obra… feia, bonita, a música, seu filho.

Dreams, so many dreams I had…

Os cabelos até a cintura… e as botas de couro de bico fino

Books

Beijos

Sex

Seios

Road

Férias

To floss

Fumar

French kiss

Beijo na boca

Lull

Calma

Quando minha mulher pediu o terceiro temaki desacreditei. Mais um? Ela respondeu com os olhos, azuis, encorajadores, e a boca que era só água, a boca que era quase minha. Depois disse você está tão quieto… no que está pensando? Não sei… na vida acho. Às vezes me parece um pouco injusta, não sei… Alguém responde verdadeiramente à esta pergunta? Seria trabalhoso demais, não é mesmo… e também ninguém se escancara a ponto de abrir a portinhola do calabouço… o coração, as pernas, tudo bem, mas não a portinhola. Não ligou muito para minha resposta à sua pergunta e engatou perguntando se eu tinha notado o casal de gringos na mesa ao lado, ela achou que eram americanos… chutei que eram ingleses… nós dois falávamos mal e porcamente o inglês.

Daniel Carasso

O Colecionador – por Daniel Carasso

20 Mai

O rapaz ia percorrendo seu caminho
E como não podia deixar de ser
No meio do caminho tinha uma pedra

Contrariado, chutou a pedrinha. Mas machucou o dedo
A pedrinha rolou e parou mais à frente, no meio do caminho
Entendeu, chutar não resolvia. Baixou-se, pegou a pedrinha e colocou-a no bolso. E foi

Continuou o caminho. Nas retas e nas curvas, pedrinhas. Invariavelmente encontrava pedrinhas no meio do caminho. E foi recolhendo-as. Tirando-as do caminho e levando consigo. Encheu os bolsos das calças e dos paletós. E continuava o caminho. Com o tempo encheu as mochilas e outros sacos com as pedrinhas que recolhia. Encheu-se delas, só não colocou pedrinhas na boca, nas orelhas e no rabo. Foi carregando as pedrinhas e percorrendo seu caminho. Avançava lentamente, mas deixava pegadas cada vez mais profundas. Arrastava-se, mas sentia orgulho; virava o pescoço e para trás o caminho livre de pedrinhas.

Até que empacou, de repente, numa terça feira, assim, sem mais nem menos. Baixou para recolher uma pedrinha, e quando levantou, travou. Não tinha como dar mais um único passo. Travou de pé, ali no meio do caminho, como uma árvore que tivesse fincado raízes. Não avançou mais. Eram pedrinhas demais, toneladas. Aquele peso, pedrinhas infinitas… começou a comprimir, foi sendo amassado, esmagado. Foi derretendo feito essas geleiras da Groelândia por causa deste maldito aquecimento global. Mas derretia por dentro, internamente, do centro pra fora, o eixo foi cedendo, mais um pouco e despedaçava-se. Eram toneladas.

Um dia passou pelo caminho um velho mago. Ao ver o rapaz plantado carregando as infinitas pedrinhas do caminho, com gentileza e sutileza parou ao lado:

- Aceitarias um conselho, meu jovem fiel e persistente?

- Diga lá, meu ancião. Despeje sua sabedoria, honra-me com este ato.

- Carregas peso demais, mas isso já sabes. Limpaste o caminho, deixaste tuas marcas, carregaste meio mundo nos ombros, e orgulha-te disso, bem vejo.
Não há que explicar nem justificar. Não há que elucubrar, refletir, analisar. Tampouco adianta pesar. De nada nos vale chegar às verdades neste momento, às respostas. Se é honroso teu ato? Se há vaidade somente? Se estás louco ou salvando o mundo? Se carregas as pedrinhas pois machucou o dedo quando chutou a primeira ou se o faz porque buscava, de alma, virar tronco e raízes? Esqueçamos tudo isso, meu rapaz, pois, o que vejo não posso duvidar. São meus olhos que me confirmam, logo é esse o único fato. O que vejo eu, meu jovem?

- Um homem carregando pedrinhas demais, empacado, no meio do caminho. Algo a acrescentar, respeitável mago?

- Meu jovem astuto, tens razão, vejo efetivamente o que vens de descrever: Uma pedra no meio do caminho. Mas perceba, vejo também uma encruzilhada. Vejo um rapaz que precisa tirar as pedrinhas do caminho, mas que carrega tantas pedras que não pode mais percorrer este caminho. Perguntarás certamente qual é a solução, pego a esquerda ou a direita? Adianto que não tenho a resposta, e que travado como estás, não pegas nem uma nem outra. Mas posso talvez oferecer-te ajuda. Posso retirar-lhe dos ombros a última pedrinha que cataste. Aquela que foi a gota d’água, que impediu que continuastes o caminho e que botou-te aí feito poste. Verás que logo as raízes encolherão, o que derreteu se consolidará, vais desamassar jovem teimoso. Terás então a possibilidade de escolher, poderás continuar o caminho, pegar a direita, a esquerda, ir em frente, voltar para trás… Infinitas possibilidades terás, meu jovem, inclusive a de recolher mais uma pedrinha. Mas atenção, agora já sabes o peso que suportas. Uma pedrinha e empacas de novo, o eixo central não suporta.

O mago pegou a última pedrinha que o rapaz havia recolhido e atirou-a para frente, bem no meio do caminho. E foi-se.

Sabe-se lá o que fez o nosso colecionador de pedrinhas quando alguns minutos após conseguiu mover-se, deixando de ser tronco fincado, travado, pedra no meio do caminho.

Sabemos apenas aquilo que o rapaz aprendeu do mago, do caminho, das pedras: Há o caminho, no meio do caminho uma pedra. Sempre haverá pedrinhas. Podemos carregá-las, mas há um limite, e há que se aprender qual é o peso que o eixo central suporta, senão, a gente cede, dobra:
Gosto de imaginar que o rapaz também percebeu, que lá para frente, no caminho, cheio de pedrinhas, tem o fim do caminho. Mas ai é outra fabula, n’est ce pas?

É pouco? É muito? É tudo?

O Desgoverno do Riso – Fabrício Carpinejar

14 Mai

Teu riso não é o mesmo riso. Há tantos risos em ti, que ainda não descobri todos. O riso contido, encabulado, que costuma aparecer em restaurantes. O riso desaforado, malicioso, com a proximidade dos ouvidos. O riso choroso, que surge no meio da tristeza e te faz rir e chorar ao mesmo tempo, como uma pane elétrica. O riso materno, de orgulho distanciado, como que perguntando como aquela criança enorme saiu de teus olhos. O riso ao sair do banho, boiando no perfume, mostrando os dentes como seios. O riso fúnebre, do sarcasmo, quando não suportas mais uma conversa e empurra a cadeira e a respiração para trás com barulho. O riso sem graça nenhuma, falso, que aconteceu involuntário e não tinha fôlego para permanecer. O riso esparso, que escreve os olhos em letra minúscula. O riso do gozo, que se levanta com a ajuda dos braços da cama. O riso esticado para fotografia, de pálpebras cerradas. O riso da formalidade, meia boca, de quem não está ouvindo. O riso epilético, da brincadeira, onde as palavras são profecias. O riso de quem não é indiferente a nascer, cúmplice, amigável de sombras. O riso do cumprimento. O riso do aceno. O riso debaixo de um guarda-chuva, minguante, preocupado em não pisar em um rosto. O riso estranho, de não lembrar o nome com quem se está falando. O riso do perdão. O riso do castigo. O riso desigual, que puxa mais o lado esquerdo do que o direito, que entorta a boca como uma aspirina sorvida a seco. O riso que é soluço e demora alguns segundos para voltar. O riso contemplativo, com os lábios comprimidos de mímica e crepúsculo. O riso que é gargalhada, uma pedra sem chegar ao fundo. O riso afônico, como um filme rebobinando. O riso indiferente, que não faz cova, nem enterra o osso do riso. O riso macio, do sono, das pernas esticadas no lençol novo. O riso que é desgoverno da palavra. O riso que gosta e não elogia. O riso da adoração de algum canto. O riso de quem ama tudo e não se mexe. O riso de enganar as intenções da cólica. O riso tardio, que se dá conta bem depois do riso. O riso antecipado, nervoso, antes da hora. O riso da impaciência, apertado como um desejo. O riso da prova, da fugacidade deliciosa. O riso do provador quando a roupa ajuda a esquecer as medidas do corpo. O riso de sobra, de quem encontrou uma vaga para estacionar. O riso da fome, que fica aberto, em sentinela. O riso de quem retém o sopro de um verso. O riso sentado estando de pé. O riso teológico, que promete Deus em causas próprias. O riso que desaprendeu o volume da água. O riso do susto, justamente quando pensava bobagens. O riso que peguei emprestado como um livro e não devolvi e de vez em quando ele ri sozinho dentro de minha boca, sem saber ao certo qual foi dos teus risos.

http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br

1 Mar

Continuo lendo regularmente o blog do Fabrício Carpinejar. Copio aqui um trecho de um texto dele que fala sobre a saudade, taí:

Saudade é não rasgar os selos das cartas na hora de abrir. Umedecê-los com o vapor da chaleira.

Saudade, meu filho, é dormir com dois travesseiros para o corpo não doer pelo excesso da cama.

Saudade é arrumar a mesa quando não jantaremos em casa.

Saudade é esperar a ligação do avô que já morreu.

Saudade é não jogar fora as meias que se desencontraram do seu par.

Saudade é não organizar a bolsa ainda que não se encontre mais nada nela.

Saudade é um poço artesiano coberto por uma tábua.

Saudade é uma parede que descascou tangerinas.

Saudade é errar o caminho quando se vai ao trabalho.

Saudade é quando a gente esconde uma lembrança dentro de uma música. E a música dentro de uma lembrança.

Saudade é adivinhar o tamanho do pátio pelo varal.

Saudade é desamassar as roupas com as unhas.

Saudade é tomar banho no escuro.

Saudade é uma residência de verão com lareira.

Saudade é abrir seu diário antigo e pedir ajuda para entender a letra.

Saudade é um avental com as iniciais bordadas.

Saudade é uma boina com cheiro de funcho.

Saudade é pisar descalço na memória com medo de roseta.

Saudade é lembrar o que poderia ter acontecido antes de acontecer.

Saudade é imitar o assobio de uma porta.

Saudade é fechar o livro para que ele se abrace.

Saudade é procurar o que não foi extraviado.

Saudade é esquecer o que se falou com Deus.

Saudade é saber a importância do que nunca se teve.

Saudade é reconhecer um amigo da infância no filho.

Saudade é sentar na escadaria de uma igreja só para suspirar os degraus que faltam.

Saudade é parar diante de um mendigo com as mãos vazias.

Saudade é lavar os cabelos do violão.

Saudade é usar o cadarço para costurar duas ruas.

Saudade é escrever o que se precisa ler.

Mais do Fabrício Carpinejar

11 Dez

Estou curtindo muito os textos e poesias deste cara, compartilho aqui com meus poucos e fiéis leitores.

As sombras da vinha

Quero estar rente a tudo,
roçando as vísceras,
cheirando a acúmulos.
Quero apresentar-me
com a cara e as mãos
de quem acabou de fuçar
as hortas. Em desalinho,
em farpas, em suor misturado
aos sucos, com manchas
de frutas que não alvejam.
Os cabelos emaranhados
de folhas e presságios.
As sardas da longa
exposição à inclemência.
Quero ser, da poesia,
o bicho mais bravio.

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De tanto ler
o que não estava escrito,
o livro pode sair
de si mesmo.

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Nos encontramos lá em cima

Eu me aguardo mais do que tenho paciência.
Nem sempre eu me encontro, tem dias que vou ao trabalho sem me levar, tem dias que sou uma lembrança do que precisava ser.

Há quem acredite que está inteiro sempre?

Não, não é possível. Nunca seremos inteiros sozinhos. Eu me aproximo da inteireza na praia. Uma praia do entardecer, quando o vento arrasta suas redes e os barcos se entendem com as estrelas. Uma hora em que o mundo parece que está voltando para casa e não decidindo nada.

Nessa hora imprecisa entre a tarde e a noite, gosto de ser insultado pelas gaivotas. Elas se aproximam e se afastam. Arrulham com a violência das crianças jogando futebol, brincam com a bola imaginária de minhas mãos, zombam de minha âncora para voar mais alto.

Eu sempre fui virgem para cada mulher. Porque não sou completo. Sou o adolescente que se deslumbra para conhecer. Que abre o sutiã para logo aproximar o peito. Como se o meu peito fosse proteger os seios. Como se meu peito fosse uma camisa envergonhada. O adolescente que arrisca pela intuição, por ouvir os ouvidos. Que ainda não encontrou algo mais excitante na vida do que tirar a calcinha. E olha para os pés dela para que a ânsia complete o que faltou enxergar. Que tem cuidado para entrar, um cuidado viril, um cuidado autêntico, um cuidado permanente que não perderá quando estiver distante.

A segurança me tornou insensível. Não dependo dela. Não sou um ator para ler o texto antes de interpretar. Interpreto a minha própria ignorância.

Até sei que isso não conta pontos na sedução e me fará passar uma imagem de inexperiente. Sou cada vez mais inexperiente. Minha mulher que o diga.

Amar é inexperiência, é esperar que a minha mulher se espere. Posso me faltar, mas ela não. Não fazer nada que não tenha sido aquecido pelo sopro. Essa praia que é a cintura: as águas mexendo as pedras sem ninguém ver, deslocando o som, conchas correndo secretas.

É a inexperiência que me toca. A experiência da inexperiência. O que me agrada sinceramente é quem recebe o esquecimento e ainda assim não se esquece. Quem não retira o cumprimento atrás da porta. Mas o que se contenta com um abraço ou um deslizar mútuo dos dedos.

Não desejo impor meu ritmo. Toda a transa é a primeira. Os lábios se multiplicam no rosto. Há mais bocas do que duas bocas. Sombras de bocas. A respiração ajuda a espalhar o beijo. Uma excitação pela próxima palavra. O corpo é um ditado. Uma palavra por vez. Não ter idéia de qual seja a próxima palavra. Suspirar dentro do gemido. Não ter idéia de subir e descer, e descer e subir na própria indecisão. Cada olhar como a repetir: “Vem, eu a ajudo a subir”.

E só gritar, como as gaivotas, quando estiver no alto.

Fabrício Carpinejar

Síndrome de Heroes

8 Dez

Tem dias que dá vontade
De me tele-transportar
Como o Hiro Nakamura faz
Quando apenas com o piscar
Pode andar por todo canto
E pelo tempo viajar…

Tem dias que também quero
Não sentir nenhuma dor
Como a Claire Bennet faz
Quando toma uma facada
Ou qualquer outra porrada
Ela consegue regenerar…

Tem dias que me imagino
Passeando pelas nuvens
Como o Nathan Petrelli faz
Quando tira os pés do chão
E com um salto rumo ao céu
Ele consegue voar…

Tem dias que eu até tento
Ter o poder de escutar
Como o Matt Parkman faz
Quando ele se concentra
Pode ler os pensamentos
De quem não quer falar…

Mas tem dias que eu só quero
Não ter que me lembrar
Das histórias impossíveis
Que um dia eu quis sonhar
Pois a vida é bem mais louca
Do que possa imaginar…

Fabrício Carpinejar

8 Dez

Já que citei o blog do Saramago no post abaixo, cito também o blog do Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Meu irmão me indicou e gostei muito das coisas que li até agora. Abaixo, dois textos dele.

O desgoverno do riso

Teu riso não é o mesmo riso. Há tantos risos em ti, que ainda não descobri todos. O riso contido, encabulado, que costuma aparecer em restaurantes. O riso desaforado, malicioso, com a proximidade dos ouvidos. O riso choroso, que surge no meio da tristeza e te faz rir e chorar ao mesmo tempo, como uma pane elétrica. O riso materno, de orgulho distanciado, como que perguntando como aquela criança enorme saiu de teus olhos. O riso ao sair do banho, boiando no perfume, mostrando os dentes como seios. O riso fúnebre, do sarcasmo, quando não suportas mais uma conversa e empurra a cadeira e a respiração para trás com barulho. O riso sem graça nenhuma, falso, que aconteceu involuntário e não tinha fôlego para permanecer. O riso esparso, que escreve os olhos em letra minúscula. O riso do gozo, que se levanta com a ajuda dos braços da cama. O riso esticado para fotografia, de pálpebras cerradas. O riso da formalidade, meia boca, de quem não está ouvindo. O riso epilético, da brincadeira, onde as palavras são profecias. O riso de quem não é indiferente a nascer, cúmplice, amigável de sombras. O riso do cumprimento. O riso do aceno. O riso debaixo de um guarda-chuva, minguante, preocupado em não pisar em um rosto. O riso estranho, de não lembrar o nome com quem se está falando. O riso do perdão. O riso do castigo. O riso desigual, que puxa mais o lado esquerdo do que o direito, que entorta a boca como uma aspirina sorvida a seco. O riso que é soluço e demora alguns segundos para voltar. O riso contemplativo, com os lábios comprimidos de mímica e crepúsculo. O riso que é gargalhada, uma pedra sem chegar ao fundo. O riso afônico, como um filme rebobinando. O riso indiferente, que não faz cova, nem enterra o osso do riso. O riso macio, do sono, das pernas esticadas no lençol novo. O riso que é desgoverno da palavra. O riso que gosta e não elogia. O riso da adoração de algum canto. O riso de quem ama tudo e não se mexe. O riso de enganar as intenções da cólica. O riso tardio, que se dá conta bem depois do riso. O riso antecipado, nervoso, antes da hora. O riso da impaciência, apertado como um desejo. O riso da prova, da fugacidade deliciosa. O riso do provador quando a roupa ajuda a esquecer as medidas do corpo. O riso de sobra, de quem encontrou uma vaga para estacionar. O riso da fome, que fica aberto, em sentinela. O riso de quem retém o sopro de um verso. O riso sentado estando de pé. O riso teológico, que promete Deus em causas próprias. O riso que desaprendeu o volume da água. O riso do susto, justamente quando pensava bobagens. O riso que peguei emprestado como um livro e não devolvi e de vez em quando ele ri sozinho dentro de minha boca, sem saber ao certo qual foi dos teus risos.

Conte-me os finais dos filmes

Conte-me os finais dos filmes, eu não me importo. Eu esqueço os finais dos filmes. Nunca guardo o que acontece no enlace. O final do filme é o menos importante. Não entendo como embaralho os finais como se fossem começos. Minha memória não é fotográfica, ela corre a letra e não me entendo depois. O que eu fiz com os finais dos filmes? Os livros me influenciam e não me deixam concluir. Não posso concluir o que adivinho. Eu transformei os finais dos filmes em livros que não escrevi. Gosto que me digam o final antes de assistir o filme. Eu vou esquecer assim que assistir. Conte-me o final de minha vida, eu não me importo. Ciganas, fadas, bruxas não me apavoram. Não vai mudar o que farei. O final da vida não altera meu endereço. Não altera a fome que havia na vida. O ácido da boca. A hortelã da boca. O susto de estar errado. O acerto inesperado. Não vai alterar a ordem da rotina, a ordem da minha higiene: se tomo primeiro o pente, depois a navalha, depois a escova, depois o cortador de unhas. Não vai alterar minha dieta, minha receita médica, a cor de minha língua. Não vai alterar as sete quadras que atravesso para chegar ao banco, o modo de discordar da luz. Não vai alterar o cheiro da grama com a chuva. A impureza dos ouvidos. Não vai alterar a reposição da aguardente no bar. O suor das árvores. A manchete do jornal que não lerei. Conte-me o final do livro. Não vai alterar o desejo feito de começos. O começo do desejo no desejo. As tardes lentas do domingo. Os cabelos lentos da filha. Não vai alterar o modo como viro a página, o modo como troco de assunto. Não vai alterar a floresta reduzida a um ninho. O ninho reduzido a uma asa solteira. Não vai alterar a evaporação das uvas. O número de amigos. Não vai alterar o horário das missas, dos cinemas, do nascimento. O final do livro não vai alterar o autor e sua insuficiência. Não vai alterar o que não se enterra no final.

Blog do Saramago

8 Dez

O blog chama-se O caderno de Saramago .

O texto copiado abaixo eu extrai do blog. É sobre o livro Budapeste do Chico Buarque. Eu curti muito o livro, mas ouvi muitas críticas ruins de outras pessoas que leram.

Chico Buarque de Holanda
Outubro 21, 2008


Haverá universos paralelos? Perante as variadas “provas” apresentadas ao tribunal da opinião pública pelos autores que se dedicam à ficção científica, não é difícil acreditar que sim, ou, pelo menos, estar de acordo em conceder à temerária hipótese aquilo que não se nega a ninguém, isto é, o benefício da dúvida. Ora, supondo que realmente existam esses tais universos paralelos, será lógico e creio que inevitável ter de admitir igualmente a existência de literaturas paralelas, de escritores paralelos, de livros paralelos. Um espírito sarcástico não deixaria de recordar-nos que não se necessita ir tão longe para encontrar escritores paralelos, mais conhecidos por plagiários, os quais, no entanto, nunca chegam a ser plagiários de todo porque alguma coisa da lavra própria se sentem na obrigação de pôr na obra que assinarão com o seu nome. Plagiário absoluto foi aquele Pierre Menard que, no dizer de Borges, copiou o Quixote palavra por palavra, e mesmo assim o mesmo Borges nos advertiu que escrever o termo justiça no século XX não significa a mesma coisa (nem é a mesma justiça) que tê-la escrito no século XVII… Outro tipo de escritor paralelo (também chamado nègre ou, mais modernamente, ghost) é aquele que escreve para que outros gozem a suposta ou autêntica glória de ver o seu nome escrito na capa de um livro. Disto trata, aparentemente, o romance – Budapeste – de Chico Buarque de Holanda, e se digo  “aparentemente” é porque o escritor “fantasma” cujas grotescas aventuras vamos acompanhando divertidos, se bem que ao mesmo tempo apiedados, é tão-somente a causa inconsciente de um processo de repetições sucessivas que, se não chegam a ser de universos nem de literaturas, sem dúvida o serão, inquietantemente, de autores e de livros. O mais desassosegador, porém, é a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo, cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provocação “ontológica”: que é, afinal, a realidade? o que e quem sou eu, afinal, nisso que me ensinaram a chamar realidade? Um livro existe, deixará de existir, existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu, também desapareceram ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.

José Saramago

2 Dez

A velha lançou os búzios sobre um velho manto. Eles rolaram lentamente. Durou o tempo de uma tensa e profunda respirada, que preencheu meus pulmões com a fumaça daquele incenso quase acabado. Imóveis, os búzios apontaram para o norte. A velha então, olhou-me nos olhos desconfiada. Fez uma pausa, fitando-me com curiosidade. Desviou o olhar, recolheu os búzios de cima do manto e ameaçou sorrir.

- Há solidão em seu olhar triste.

Permaneci calado.

- Como você já deve imaginar, não foram os búzios que me disseram isto. Seu destino é imprevisível, rapaz. Nem eu, nem os búzios ou qualquer outro poder de vidência poderá revelá-lo. Sua sorte está lançada e seu rumo, do acaso é cúmplice.

Ainda calado e tentando manter uma fisionomia fria e imparcial, estendi a mão para entregar-lhe o dinheiro da consulta. Ela pegou o dinheiro e como quem está com a pulga atrás da orelha, pediu:

- Rapaz, deixe-me ver suas mãos?!

Estendi as mãos com as palmas para cima. Ela então, com seus dedos, tocou a ponta dos meus dedos, alisando a área onde está desenhada a impressão digital. Neste momento, não consegui conter a expressão de surpresa em minha face e deixei escapar uma palavra:

- Deja-vu!

Alienações Aleatórias

28 Nov

A partir de hoje, volto a escrever neste blog com a mesma pegada de quando ele foi concebido há 2 anos. Um depósito de pensamentos aleatórios. Poesias, devaneios, vídeos, músicas, contos, textos, fotos, imagens, frases e qualquer outra merda que eu queira publicar, de minha autoria ou não. Um espaço virtual meu. Sem censuras, principalmente, a minha própria censura (recentemente, deixei de publicar uma porção de coisas, e agora vejo que isto é uma grande bobagem). Que meus poucos leitores façam seus julgamentos e interpretações. Comentários sempre serão bem vindos.

rilke – trecho

22 Out

“Assim, aqueles que se juntam durante as noites e se entrelaçam em uma volúpia agitada fazem um trabalho sério, reúnem doçuras, profundidade e força para a canção de algum poeta vindouro que surgirá para expressar deleites indivisíveis.” R.M. Rilke

Leão

17 Out

Há mais ou menos dois anos, quando criei este blog, meu irmão Daniel, me escreveu um texto nos comentários de boas vindas. Estava dando uma olhada em postagens antigas do blog e o encontrei aqui. Hoje, o texto fez muito sentido para mim. A minha interpretação foi diferente daquela que tive na primeira vez que o li. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. De qualquer forma, gosto muito do texto e por isso estou publicando aqui.

O Leão rugia por dentro enquanto o grupo de ovelhas atravessava sua planície. A proteção dos pastores, armados até os dentes, impedia que o leão exercesse suas atividades, satisfizesse seus desejos e instintos. Leão não podia mais, rangia os dentes, andava de um lado para o outro, cavava buracos enormes com suas bolachudas patas. A tensão de leão do Leão transbordava, aumentada pelo calor e pelos vários dias de fome. Leão tremia, mas não de um tremor de medo, nem um tremor saudável de excitação e ansiedade. Tremia de fúria incontida. Babava, suava. Era leão e não podia controlar seus mais profundos instintos.
O Leão olhou fixamente para o rebanho que encontrava-se a uns 80 metros. Retesou os músculos do corpo inteiro e descansou sua alma. Partiu radiante, a juba balançando ao vento, acompanhando o movimento dos saltos. A velocidade controlada, as passadas seguras, potentes. Cena grandiosa, de rara beleza. O estrago não contava naquele momento. Nem mesmo a fome. Tudo era ato. O Leão era ato… estupendo. Tudo do Leão, tudo de leão, resumido em alguns segundos de beleza. Avançando, agora livre, guiado pelo cheiro, pelo som que o vento trazia, pelo costume, pelo desejo, pelo instinto, pela sua própria razão de ser. Não importavam os tiros das carabinas em sua direção, sentia apenas o odor do terror que as ovelhas exalavam, e como não podia deixar de ser, o néctar inebriante do gosto do sangue. O Leão não sabe, mas foi abatido feliz, leão, integralmente leão.

Daniel Carasso

Boa surpresa

17 Out

Fiquei feliz pra caralho quando cheguei em casa hoje, abri meus e-mails e vi a mensagem do meu querido irmão de milianos, Dudu. Dudu e Agnes estão morando em Paris já faz um bom tempo . Nos encontramos lá ano passado, fiquei alguns dias hospedado no apartamento deles. Tenho orgulho de dizer pra todo mundo que fui eu quem apresentei um ao outro em 2004 em Barcelona. A boa nova é que chegam no Brasil para passar as férias em meados de dezembro. Saudades! No e-mail recebi uma foto de um momento passing malabares na praia. Taí!

ben harper – fragmentos

3 Out

You may write me down in history
You may trod me down in the very dirt
You may shoot me with your words
You may cut me with your eyes
But I’ll rise.

Clarice Lispector – trecho

1 Out

Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.

(Clarice Lispector)

D. Lynch – pensamento

29 Set

Se você quiser pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá que entrar em águas profundas. Quanto mais fundo, mais poderosos e mais puros são os peixes. Peixes enormes, abstratos e, realmente maravilhosos. Quanto mais você expande a consciência – a atenção – mais fundo é o seu mergulho na direção desta fonte, e maior é o peixe que você pode pegar.  (David Lynch)

Equinócio

24 Set


O inverno (tempo hibernal) acabou. O equinócio aconteceu. O Sol veio para o Sul.

Que venha então a Primavera. Que novas flores renasçam e brotem coloridas, cheirosas e encantadoras. E os pássaros voltem a cantar com orgulho. E os dias sejam mais longos, nítidos e brilhantes.

A mulher que só amava ao anoitecer

15 Ago

Joana era um tipo interessante de mulher. Aquele tipo de mulher que dá vontade de desvendar. E eu desvendei, não por completo, mas alguns segredos e detalhes eu consegui, com bastante esforço, trazer à tona. Até hoje lembro do dia em que ela me contou seu maior segredo. Infelizmente não poderei contá-lo a vocês, fiz juramento de sigilo, coisa que não quebro por nada nessa vida.

Era uma mulher discreta e misteriosa. Sempre me olhava nos olhos e lançava um sorriso complacente que nunca saquei direito. Devo admitir que tenho vasta experiência, conheci diversas mulheres a fundo, mulheres de todos os tipos, idades e nacionalidades. Joana era, definitivamente, diferente, tinha uma confiança que beirava a soberba, mas seu olhar doce fazia dela imune a qualquer julgamento.

Um dia ela me disse que queria ter uns 2 metros de altura. Sempre invejara as jogadoras de basquete e vôlei. Adorava observar como se moviam os altos. Eu achava o máximo este desejo dela e, para consolá-la, dizia que seus pés seriam muito grandes se fosse tão alta e que seus pequeninos pés eram lindos assim.

Joana tinha 1 metro e 68 centímetros, uma bunda incrivelmente dura e redonda e seios que apontavam para cima, com aréolas rosadas e bicos grandes. Era morena de pele, sempre queimada de sol, adorava passar horas a fio exposta às radiações solares, mas sempre usava cremes protetores que deixavam a cor dela na medida exata para uma ereção imediata só de olhar para seu corpo.

Foi uma das mulheres que mais me saciou sexualmente, transávamos por horas praticamente ininterruptas. O curioso é que ela gozava em jatos, e eu adorava isso. No começo ela ficou um pouco receosa em demonstrar tais virtudes, mas quando percebeu minha alegria em vê-la gozando, se soltou e passou a lançar seus jatos, orgulhosa.

A questão mais interessante é que sentia amor apenas durante as noites. Bastava anoitecer e ela se declarava para mim, dizia que me amava, que eu era o homem da vida dela. Quando acordávamos na manhã seguinte ela me olhava com desdém e apenas retribuía os beijos, sem dar-me muita atenção.

Foram três anos de paixão entre nós. Dias apáticos e noites alucinantes. Muito sexo, muitos jatos, meus e dela, e a certeza de que foi a mulher mais interessante que conheci em minha vida. Até agora.

“O Cigarro” – por Milena Carasso

6 Ago

Sei que não é fácil entender o fumante. Mas vamos por partes. Em primeiro lugar, parece-me desnecessário e até opressivo tratar do fumante de forma tão ingênua. É claro que sabemos que fumar faz mal, é óbvio que tememos ter câncer, é nítido que nos sensibilizamos com as figuras dramáticas de verso de maço, os dentes feiosos, a perna gangrenada, a criancinha (não parece que ela está cheirando cola?), e o pulmão que, honestamente, a mim me lembra uma bela maquete de feira de ciências. Não se trata, no entanto, de nada disso.

O fumante, é preciso entender, tem seu jeito próprio. Ele nunca está sozinho. E nunca não está fazendo nada. Pode não estar trabalhando, não estar estudando ou tendo uma longa conversa. Está, entretanto, e muitas vezes, simplesmente fumando. O fumante é mais feliz na espera por alguém; o fumante que espera alguém espera menos. O fumante que espera o ônibus então, tem em seu repertório um poder só dele. O de decidir, finalmente, acender um cigarro, e ver, mais finalmente ainda, o ônibus chegar naquele exato momento. E esta incrível relação, de uma disputa muda e singela, entre o fumante e o ônibus, vai além. Não pode ser mera coincidência que o preço do cigarro e o do ônibus sejam assim tão parecidos. Quem nunca juntou moedas, somou dois reais e pouco e teve de então decidir: pego um ônibus ou compro cigarro? O verdadeiro fumante vai a pé. Ofegante, é provável, mas nunca sozinho.

Ah…ser fumante. Só o fumante conhece o tempo de um cigarro. E não seria útil agora falar da infinitude e relatividade do tempo, porque se cairia inevitavelmente numa filosofia sem término. Desde sempre o homem tenta marcar o tempo. E nenhum cronômetro, porém, nenhum relógio ou ampulheta, são tão precisos quanto o tempo de um cigarro. Só o fumante sabe, numa cumplicidade excitante, o que o outro fumante quer dizer quando decreta: “Já vou, vou só fumar um cigarro”, ou “Vou fumar um cigarro e já volto”. O tempo de um cigarro é precioso e exato como poucas coisas são. Eu, particularmente, quando apago um cigarro na metade, quase lhe peço desculpas. Dobro-o no cinzeiro, todo desengonçado, e o observo em sua situação constrangedora e diminuta_ trata-se de um cigarro-borboleta, de vida efêmera_ e sinto. Só o faço quando alguém que esperava me buscar na porta do prédio chega, quando aparece enfim a comida no restaurante, ou quando um não-fumante (Sim, às vezes falamos com eles), quer nos dar um beijo na boca. Fora isso, nada justifica assassinar precocemente um cigarro.

Da mesma forma, penso que nenhum verdadeiro fumante pede trago. O verdadeiro fumante sabe que se trata, o cigarro, de uma porção única. Solicitar um trago, ou, o que é ainda pior, dar-se ao direito de pegar um trago de um cigarro aparentemente esquecido em um cinzeiro, é coisa de amador. Para mim não pode haver algo mais invasivo. Pegue um cigarro inteiro, pegue meu dinheiro, leve embora minha bolsa, mas, por favor, não mexa com o meu cigarro! É tão desconfortante e inadequado quanto pedir mordida de sonho de valsa ou de alpino. Simplesmente coisa que não se faz. É comum, no entanto, que se surpreendam pretendentes a ex-fumantes fazendo isso. Nada mais patético do que aquele que acha que parou de fumar. Quando me pede o primeiro cigarro, semi-sorrio com ar condescendente, até empresto o isqueiro. O segundo ainda não nego. No terceiro, insinuo sem compaixão: Sabia que aqui eles vendem cigarro?

O não-fumante, por outro lado, pode não ser má pessoa e eu confesso, admiro-o. Num mundo ideal, em que eu pudesse fazer racionalmente todas as mais mirabolantes escolhas, além de rica e mais magra, seria não-fumante. No rodízio de churrascaria, faria um belo prato de folhas verdes, tomaria suco de abacaxi, e ao final da refeição, pagaria a conta sorrindo e me levantaria sem pressa, sem procurar ansiosa na bolsa, ao mesmo tempo em que levanto, o maço amassadinho que esperou pacientemente eu comer_ este outro hábito ao qual, com cortesia, o cigarro cede espaço. Não haveria cafezinho. Depois, feita a digestão, iria correr no parque, nadar umas cem chegadas, e à noite, provavelmente, dormiria cedo e sem tossir.

Infelizmente a rotina do fumante é quase obrigatoriamente uma outra coisa. O não-fumante, este ser esquisitinho que não acende um cigarro na final da Copa e que faz suas digestões autônoma e tranqüilamente, é mesmo um vitorioso. Ele não chega na padaria e o homem do caixa já não paga um maço do seu cigarro preferido e não o põe em cima do balcão. É possível, aliás, que passe despercebido pelos funcionários da padaria. Ninguém registra quem compra pão. Ele, então, não desenrola com a pontinha dos dedos a fitinha que envolve seu maço, não puxa o aluminiozinho, não saca um cigarro, não o põe na boca, e não dá aquele primeiro trago. Também não deve dar um mergulho na piscina quando está calor, nem fazer xixi quando está apertado. O não-fumante não vive de alívios. Vive de constância. Terminada uma fogosa noite de amor, ele simplesmente vira pro lado e dorme. Talvez tome um copo d´água. Ele não alcança a cabeceira, não acende um cigarro, e não conversa amenidades com seu parceiro, os braços atrás da cabeça, a fumaça se espalhando lentamente pelo quarto. O fumante que tem noites de amor com não-fumantes pode passar por alguém pouco sensível. Ele deve, se for assim o combinado, levantar-se pra fumar lá fora. É uma pena. É um momento hostil pra se fumar um cigarro, como fumar na estrada com o carro a mais de cem por hora, e o vento fazendo as cinzas se voltarem contra você e fumando junto. Como fumar na praia, com toda aquela gente olhando se você vai mesmo recolher as bitucas e jogar no lixo no final da tarde. É hostil, mas inevitável.

Por fim, temos o ex-fumante, aquele ser superior que esteve entre nós e do qual nos despedimos com muita dor. É necessário ressaltar que não considero ex-fumante quem fumava menos de dez cigarros por dia, sobretudo se for de filtro branco. Essa gente atrapalha as estatísticas que calculam quem conseguiu parar de fumar. Essa gente nem fumava antes do meio-dia. Falo daquele que bravamente conseguiu dar adeus a seu melhor amigo e que nunca mais fumou. Ele ainda sonha que está fumando, e em seus devaneios eventuais, imagina-se velhinho, minutos antes de morrer, pondo de novo um cigarro na boca. Ele é exigente com seus amigos e parentes que fumam. Se ele conseguiu, toma vergonha na cara e pára também. É o que ele pensa. Mas como todo ex, ex-namorado, ex-colega de trabalho, ex-presidente, devemos nobremente respeitá-lo e não vemos, no entanto, muita graça em sentar com ele à mesa. Ele passou pro lado de lá. Ele nos desperta uma ponta de inveja e culpa. Culpa porque não temos a mesma força, culpa por acender um cigarro bem na frente dele enquanto tomamos cerveja.

O ex-fumante ainda pode falar alguma coisa que nos acrescente em nossa luta cotidiana com o cigarro, mas o resto não. A forma como o fumante vem sendo tratado dá mais nojo que pôr um pouco de água num copo plástico pra usar de cinzeiro. É repugnante. É desleal. Nem me darei ao trabalho de apontar aqui tudo que fazem de não-saudável, não-ético e politicamente incorreto aqueles que não fumam, no intuito de me defender. Se eles dirigem rápido demais na estrada, se eles bebem em excesso ou usam outras drogas, se eles não são bons amigos ou filhos, tudo bem. Quando me emputecem , tenho um cigarro pra acender e me acalmar. Eles não têm. Eles vivem de pesquisas. Não sabem, porém, quantos casais de namorados ou amigos se formaram porque um pediu ao outro um cigarro, não consideram que quem fuma paga impostos altos para toda a população, não percebem que quase não há fumante suicida (o fumante vai sempre querer fumar um último cigarro, e por ai vai). Eles têm razão em ficar preocupados com nossa saúde, eles têm direito de pedir pra eu fumar com a outra mão porque a fumaça está indo na cara_embora eu ainda ache que a fumaça misteriosamente persegue mais quem se incomoda, como cachorro vai sempre brincar com aquele que não gosta de animais. Eles não podem, entretanto, fazer por nós nossas escolhas. Nós escolhemos o tempo todo, se vamos fumar um cigarro agora ou daqui a alguns minutinhos.

Eu por exemplo, escolhi que, findado o texto, dou um salvar no canto da tela, estalo os dedos, e o releio, fumando um cigarro.

Domingo

29 Jan

Figure at Window, Salvador Dali, 1925

Domingo é um dia sangrado. Há dor e reflexão e o pior, Domingão do Faustão.  No domingo tem pizza, filme e indignação. No domingo, muitas vezes passo o dia dormindo porque sei que a semana me espera e a preguiça impera. No domingo me canso de não fazer nada, me canso de pensar na segunda e na semana, me canso de saber que acabou, mas ainda precisa esperar para recomeçar.
No domingo a sexta está tão longe que nem em pensamento consigo alcançar, dormindo no domingo começo a sonhar e quando acordo este sonho tarda muito para sumir, se esvaziar. Domingo já está para acabar e eu vou pra cama antes do sol raiar.

Boas Vindas

17 Jan

marsh-flying-fish.jpg

Bem vindo! Está criado e ativado a partir de agora o Blog Alienações Aleatórias. Como o próprio nome diz, não existe um tema específico a ser discutido aqui, o conteúdo será o resultado de pensamentos momentâneos e divagações que podem ou não interessar a você receptor. Espero poder contribuir de alguma forma para a expansão de sua mente, ou pelo menos que minhas palavras façam surtir algum tipo de reação em você. Viva a vida!

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