Arquivos para a Categoria ‘devaneios’

03/11/2009

Hoje li uma frase no facebook que me lembrou desta outra frase: O escritor não escreve aquilo que ouve, nem o que o houve, o escritor escreve aquilo que sente.

Para mim, compor é fazer caber as alegrias e sofrimentos dentro de uma canção. É claro que tem vezes que as palavras faltam e o sentimento é tamanho ou tão abstrato e indizível, que nos apossamos de canções alheias para poder senti-los ou tentar torná-los palpáveis. E isso também é belo.

Que outro caminho senão a arte para expressar sentimentos? Sejam eles de alegria ou de sofrimento. E dentre as artes, por que não a música?

Por isso concluo que me encanta inventar músicas e poesias para que caibam dentro delas minhas alegrias e sofrimentos. Mesmo que ainda haja espaço para acomodá-los dentro de mim.

Só mais uma alienação aleatória.

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Presságio (micro-conto)

03/09/2009

Tive um presságio. Se vovó estivesse viva, diria que foi uma alma antiga que sussurrou no meu ouvido notícias do futuro.

O Jardim (mini-conto)

03/09/2009

Eram orquídeas de beleza rara e difícil trato, nem as mariposas se atreviam chegar nelas. Quando os ventos do norte surgiram impiedosos com seus sopros devastadores, os anjos de Deus desceram furiosos – tinham prometido protegê-las eternamente. Porém, ao cair da tarde, os ventos sopraram os anjos e as orquídeas para bem longe. Restaram apenas algumas mariposas sobrevoando aquele jardim.

10/06/2009

Encontro umas coisas que escrevi jogadas por aí e por aqui. Me pergunto se eu sou mais aquele que escreveu ou o que agora lê. Talvez seja o que não encontrou o texto perdido. Talvez seja camaleão… ou leão.

Coisa de acender qualquer
Um fósforo num incenso
Esta vela numa mesa
O sol depois da noite
Um monte de coisa
Tipo jornal no chão
Gin no copo com gelo
Palavras gritadas que seja
Mesmo sorriso de mulher
Ou dentes de cão bom
Vide cheiro de haxixe
E as mãos do bebê

Choque elétrico
Som de respiração
Água salgada e doce
Uma vaca na estrada
A fresta da janela
Soco na cara
Jogo de memória
Chopp sem colarinho
Vento de moto
Unhas que coçam
Cisco no olho esquerdo
Mordida de namorada
Uma lágrima sincera
Seda de cigarro
Coração de galinha
Tosse de inverno
Bola de gude
Briga de irmão
Botão de elevador
Pele de cotovelo
Dança de índio
Shot de cachaça
Letras no teclado
Uma crase circunflexa
Janelas escancaradas
Corda de violão
Porta moedas preto
Terno engomado
Relógio de parede
Caixa de música
Paixão de adolescente
Cinzeiro lotado
Riqueza e pétalas
Um fone de ouvido
Alça de mala grande
Olhos azuis e amarelos
Criança no semáforo
Amor incondicional
Cobertor de lã
Pedra lisa e áspera
Cadeira de balanço
Frio de Paris
Beijos infinitos
Piano e harpa
Abajur apagado
Cabelos despenteados
Geladeira com cerveja
Envelope lacrado
Dedos do pé
Cílios e sobrancelhas
Nariz de palhaço
Toque de celular
Vazo sem flores
Vazo com flores
Fé do devoto
Menina apaixonada
Isqueiro sem gás
Gavetas lotadas de passado
Dois óculos escuros
Calcinha verde claro
Sombra da montanha
Pôr do sol na praia
Curvas na estrada
Letras de músicas
Engasgar bebendo água
Tapete persa
Um crucifixo no peito
Pêra madura
Uma porta fechada
Aeroporto de Amsterdã
Vestido longo cinza
A exatidão do instante.

do fundo do baú

11/05/2009

asdf

Peguei uma pilha gigantesca e empoeirada de cd’s e estou abrindo um a um. Nossa, são tantas coisas esquecidas, deixadas para trás. Tantas lembranças vindas à tona. Tanto passado. Fiquei pensando muito nisso agora. Nessa nostalgia, por vezes até um sentimento de perda, aquilo que não tem volta. E a vida é assim mesmo. Por isso, talvez eu sempre tenha sido muito ligado ao momento, ao presente, ao que se vive de fato, sem ilusões e demasiada expectativa. O acaso, o instante. Os rumos da vida são decididos em pequenas faíscas de presente. Decisões repentinas, oportunidades momentâneas. Apenas uma linha é traçada, faça o que fizer, sempre existirão variados caminhos a se seguir, mas apenas um será o seu. O que poderia ser nunca de fato será. Os fatos são os responsáveis pelo destino e nunca aquilo que deixou de acontecer, mesmo quando poderia ter acontecido. Confuso o que escrevi, mas é que fiquei confuso ao me deparar com tanto passado. No entanto, contente por ter feito minhas escolhas, certas ou não, e ser que eu sou. Emocionante rever o passado através de textos, fotos, trabalhos feitos e etc. Abaixo uma poesia boba que escrevi há muuuuito tempo e que encontrei em um destes cd’s.

Queria fazer teatro
Tatuar um peixe alado no braço
Queria arrumar meu carro
Parar de fumar tabaco

Queria amar pra valer
E adotar um dog alemão
Queria uma casa na praia
E aprender a tocar gaita

Queria ter um filho
Cantar alto o hino
Acreditar em signo
Saber degustar um vinho

Queria sentir mais sabor
Não pensar só em labor
Queria cheirar uma flor
Sentir na praia, calor

Queria viajar para longe
Mudar um pouco do mundo
Queria saber meu destino
Fumar às vezes um fino

Queria aprender a cantar
Passar mal de gargalhar
Queria uma que me amasse
E que a vida não acabasse.

Ezra Pound

26/03/2009

ezra

Há anos ganhei um livro em um amigo secreto. Há anos que tento ler este livro – Os Cantos de Ezra Pound. São 5 mil e tantos versos, 800 e tantas páginas, pesa mais de 1 quilo. Além disso, apesar de ter sido traduzido para o português, tem trechos em latim, grego, chinês, alemão, italiano, francês. Livro caótico. Nunca lerei inteiro. Li que Ezra Pound influenciou grandes artistas modernos como James Joyce, T.S.Eliot, Yeats, Hemingway, Antheil, Gaudier-Brzeska. O cara é considerado o maior poeta pagão, anticapitalista neste mundo “cristão e ocidental”, mas é impossível ler este livro.

De vez em quando, pego o livro, abro em alguma página e leio um pouco. Hoje li a última página, está escrito isso:

Tentei escrever o PARAÍSO

Não se mova
Deixe falar o vento
esse é o paraíso.

Deixe os deuses perdoarem
o que eu fiz
Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar
O que eu fiz.

Pas mal… Curti…

Quantas voltas dá meu mundo?

25/03/2009

Fazia tempo que eu não escutava esta música. Voz e Violão é o primeiro álbum do Djavan e um dos melhores. Lembro que um dia eu estava caminhando pela calle Tallers e de repente escutei esta música tocando numa lojinha de velas e incensos.

A calle Tallers, onde morei, está cheia de lojas de cds, lojas de roupas e coisas de rock. Tava sempre lotada de punks, góticos e sei lá mais o que. Foi curioso escutar esta música saindo de uma loja naquela rua, geralmente escutava outro tipo de som por lá.

Quando cheguei em casa, baixei 3 álbuns do Djavan – A voz e o violão, Coisa de Acender e Milagreiro, joguei pro Ipod e passei a escutar direto. Mas em resumo, quantas voltas dá meu mundo?

mar

18/03/2009

Hoje bateu uma puta saudade de Caraíva. Vontade de subir em um barquinho e sair mar adentro. Sentir o efeito da maré no barco, aquele movimento lento e constante. Ver a proa levantar, a proa baixar. O horizonte surgindo e sumindo, os olhos fixos, o pensamento tranquilo, a paz de espírito. O mar tem o poder de acalmar. Acho que é a imensidão azul que se vê, a curvatura da Terra, a ausência de fim. A esperança. O mar é como a esperança.

27/01/2009

caminhada

Passadas várias horas de sono profundo, resta-me a remela nos olhos e a lembrança de um pesadelo. Tardo para perceber que era tudo um sonho. Sonho ruim. Pesadelo mesmo. Um sonho nunca é apenas e, talvez por isso, meu humor seja inconstante. Vivo o dia e a noite. Durante o dia busco respostas para uma vida toda. Durante a noite, encontro pequenas respostas que me satisfazem até que meus olhos, esgotados de tanto ver, fechem-se para enfrentar o próximo pesadelo. Ou quem sabe um sonho bom. O intervalo é o tempo em que fico piedoso pelos que sofrem mais do que eu. Nas minhas viagens, distanciado, consigo observar com calma aquilo que se move constantemente. É a vida passando. A minha e a de todos. Interrompo o filme mais de três vezes. Levanto, dou uma volta pela casa, abro e fecho a geladeira e acendo outro cigarro. O filme continua. A pausa me faz lembrar que aquilo é um filme de ficção e não um documentário sobre a minha vida. Algumas das músicas que escuto já não me dizem nada. Outras parecem querer me dizer tudo. As dúvidas e as dívidas teimam em ocupar meu silêncio e desocupar meus bolsos e desenfrear minha calma. Os freios causam a derrapagem, mas nunca estou inerte e nem parado. Estas coisas do passado causam dor. Um marca-passo que se faz escutar, às vezes baixo outras vezes alto. Sempre marcando os passos. Há quem não fique pensando em cada passo. Eu mesmo não fico. Tanto é que também tropeço, quando corro ou quando tento parar. São os passos que vou dando para me encontrar mais. Porque sou aquilo que vi no espelho ontem mais aquilo que verei amanhã. Sobretudo sou e serei aquilo que ainda não vi, nem no espelho, nem no reflexo dos teus olhos.

Blindness

09/12/2008


Até que enfim vi o filme Blindness. Achei muito bom.

Antes de assistir, escutei gente divagando sobre o filme. Dizendo que o filme revela como é incrível a capacidade do ser humano de se adaptar a tudo. Eu discordo. Para mim, o filme mostra muito mais como é impressionante a capacidade do ser humano de tornar-se desumano e cruel quando a corda aperta, quando o bicho pega. É em situações de limite que descobrimos quão podres e egoístas algumas pessoas são e o inverso também. A adaptação sempre acontece. Somos capazes de nos adaptar a tudo, verdade. Isso não quer dizer que esta adaptação seja feita de uma forma ‘humana’, com caráter, princípios e respeito.

poesia falada

06/12/2008

Não tenho certeza, mas a impressão de que o primeiro poema que escutei ou li foi ‘No meio do caminho’ do Drummond. Deve ter sido na escola e me marcou bastante. Acho que porque tem essa levada meio mantra.

É muito diferente ler uma poesia de escutar uma poesia. A poesia recitada ganha outra vida na interpretação de quem está lendo. Quando quem lê é o próprio autor, melhor ainda. Eu quando estou lendo poesias gosto de ler em voz alta. Não só pelo ritmo e entonação – porque o ritmo e entonação existem também quando lemos de boca fechada. Estão dentro de nós. Acho que é pela ressonância das palavras, não sei direito.

Que seja, venho escutando e deliciando-me com poesias do Drummond e Fernando Pessoa recitadas pelo Paulo Autran, uma interpretação muito foda. E também com crônicas e contos da Clarice Lispector lidos pela Aracy Balabanian. Descobri recentemente e estou curtindo muito.

Algumas aí!

No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade

Poema em linha reta – Fernando Pessoa

28/11/2008

Olhou-me com um desprezo que nunca antes outros olhos haviam me olhado. Muito menos aqueles olhos. Eu não reconheci aquela mulher. Não era a mesma pessoa. Um misto de raiva, rancor, amargura e indiferença. Percebi na hora que não sobrava resquício algum de bem querer, muito menos de amor por mim. Apenas a vontade e a pressa de nunca mais escutar a minha voz e olhar nos meus olhos. As poucas palavras foram vãs, já não faziam sentido, um simples relar de mãos, então, muito menos. O último contato real foi uma encarada seca e fria que em entrelinhas disse: Desapareça para sempre da minha vida.

Lies

26/11/2008

A mentira sempre me deu asco. As pessoas mentem muito. E por já terem o costume e a prática, mentem com uma naturalidade bizarra. Mentem sorrindo, chorando, olhando nos olhos, com a cara séria, a postura ereta. Mentem para a família, para os amigos, para os colegas de trabalho, mentem para todo o mundo.

Os grandes mentirosos têm a proeza de inventar histórias tão improváveis que é quase impossível não acreditar. Você acaba pensando que a pessoa não seria capaz de inventar algo tão autêntico. Mas as pessoas são criativas o bastante para fazer isso. Estes falaciosos são geniais na arte de enganar, mentir e corromper a verdade. São verdadeiros artistas que inventam histórias incríveis. Uma capacidade única que requer imaginação, frieza e cara de pau – além de uma boa memória e perspicácia, porque o mentiroso precisa inventar outras mil mentiras para poder sustentar a primeira. Mas o mentiroso é sempre pródigo de juramentos, o que o faz mais convincente ainda.

Outra coisa interessante sobre a mentira é que muitas vezes de tanto mentir a mesma mentira, a pessoa passa a acreditar nela. Loucura mesmo. Tem também um fato engraçado que já presenciei algumas vezes. Quando você escuta uma mentira e sabe que é mentira e o mentiroso também sabe que você sabe que é mentira, e você percebe que o mentiroso sabe que você sabe que ele está mentindo e continua mentindo. É engraçada esta situação. Fico imaginando, se quando você escuta uma mentira e sabe que é mentira e fingi que acredita você também está mentindo? Acho que de certa forma, sim.

Mentiras sinceras não me interessam. Por outro lado, uma verdade dita com má intenção bate todas as mentiras que se possa inventar. W. Blake que disse. Vai saber.

al al 42334

16/11/2008

pela fresta da janela
ainda há luz do sol
e parece que vem chuva

chico cantando mais uma
(das minhas prediletas)

no messenger um amigo conta
histórias de sua última viagem
esteve em Istambul por 3 dias
ainda não conheço a Turquia
(hei de visitar bandas mil)

penso em enviar um recado
uma mensagem de amor a ela
desisto – são receios meus
eu ando tentando me calar
mas rasga aqui dentro
pois meu silêncio é a dor
de não poder me expressar

ontem comecei um filme
durmi na melhor metade
tem a Monica Bellucci
ela é linda de verdade

tenho saudades direto
do que ainda nem sei
se já tive algum dia

tenho escutado fados
é uma forma de abstrair
coisas que não entendo…

vai ana

16/11/2008

todavía tiene sentido para mí… então vai ana, canta o chico aí, vai… deixe-me acreditar em paz nos meus sonhos… deixe-me com minhas ilusões aqui no meu canto… deixe-me curtir minhas lembranças do jeito eu quiser… são minhas… eu decidi acreditar, eu pago sozinho no meu caminho as minhas escolhas… vai ana, canta a canção do chico… canta a canção ana… deixe-me escutar mais uma vez e outra e talvez de novo, até que eu decida parar, até que eu consiga parar… vai ana… canta que eu ainda me encanto com toda essa coisa louca que a poesia tenta traduzir… canta porque ainda sou um sonhador desperto e lúcido e louco e bêbado e forte e fraco e eu só, só eu ana… a culpa, a sorte, o acaso, a decisão, toda essa coisa, todos esses tempos fui eu quem quis, se me engano, me engano por opção, por crença… porque assim sou eu hoje… canta ana… canta e dedilha esse violão aí… canta pra mim… não temo mais nada, ana… então canta vai… se para sempre é sempre por um triz… então não há mais porque entristecer-se… quem canta, ana, os males espanta… então faça-me o favor, canta ana…

poesia/sonho deformado

14/11/2008

conto

08/11/2008

Quando cheguei no bar, naquela tarde, ela já me esperava, aparentemente há algum tempo_ uma garrafa de cerveja jazia pela metade_ e sem ansiedade alguma. Assistia a um noticiário na TV e fumava um cigarro. Quando entrei, como se pressentisse minha presença, olhou para trás, viu-me, e sorriu discretamente voltando a olhar o televisor. Arrumou os cabelos, como quem não tivesse mais o que fazer nos segundos de espera entre eu na porta e eu ao seu lado., e talvez para me lembrar de que era mulher, penso eu.
Cumprimentei-a. Estava irrequieto, mas isso é algo que só agora, retrospectivamente, vejo com clareza.
Como sempre, minha amiga parecia bastante animada e confiante. Era comum que ao lado dela sentisse que sou daqueles homens que sofrem sem necessidade; sua forma pacífica e despreocupada de lidar com os acontecimentos me despertava uma incerteza profunda sobre a legitimidade de sua alegria. Desde sempre achei que o sofrimento fosse sinal de amadurecimento, que não levar as coisas a sério era uma evasão, uma fuga. Mas a ela estas filosofias não pareciam atingir, ainda que fosse alguém muito inteligente.
Pedi um copo. O que eu queria era mesmo dizer o quanto estava puto com a Suzana, chamar aquele velho de careca escroto, talvez agarrá-la pelos cabelos só por vingança. Mas não podia; aprendi, ou julgava ter aprendido como grande ensinamento, que é no comedimento e parcimônia que se encontram os atos mais sábios. E que, ainda que nos custe uma repressão inefável, é nos gestos mais sutis que se demonstra superioridade e calma.
Perguntei como ela estava. Ela me disse que ia bem, trabalhando muito. Como uma puta no carnaval, foi a expressão que usou, e que me fez rir. Uma vulgaridade desculpada. Fiz mais uma ou outra pergunta. Enquanto gesticulava para que o garçom nos atendesse, ela quis saber de mim:
_ E você querido, como anda?
_ Eu vou indo.
_ Aonde?
_ Como?
_ Vai indo aonde?
_Ah… Não é… É que eu e a Suzana, sabe, não sei, tá meio complicado.
_ Vocês brigaram.
Não foi uma briga, era isso que eu queria dizer, era isso que tentei dizer entre um gole e outro. A Suzana nos últimos tempos tinha dado para acusar-me, com freqüência, de ser infantil. Um dia, por ocasião de uma crise de ciúme, chamou-me mesmo de fraco, e virou-me a cabeça quase me dando um tapa com seu rabo de cavalo. Suzana tem cabelos pretos e bem grossos, e anda, comumente, com roupa de ginástica.  O problema, eu estava certo, no entanto, era com ela. Estava insegura quanto ao futuro, vivia ansiosa e tomava vez ou outra um Rivotril. Não era assim que se resolviam as coisas, eu tentei alertá-la, mas ela já não me ouvia.  Por fim, numa sexta-feira, demorou a atender o celular, depois atendeu muito incomodada e disse que estava na Ioga, que não ia deixar o celular ligado na Ioga, que ninguém deixava o celular ligado na Ioga. Não fosse o bastante chamou o professor de Estética, um senhor de quase sessenta e sem cabelos, para um café. Quando cheguei para pegá-la, estava rindo. O que tem a dizer de engraçado um professor de Estética?
Ela ouvia cuidadosamente. Sua atenção era tanta, que por alguns momentos sentia que era, apesar de uma atitude muito nobre, uma desproporção.
Quando fiz uma pausa, esticou os olhos e suspirou.
Talvez fosse falar alguma coisa, mas eu a interrompi porque lembrei de acrescentar algo muito importante.
_ E eu respeito muito a Ioga. Fiz um curso de Budismo, uma vez, lá na faculdade. Eu sei que não dá para deixar o celular ligado, não foi isso que quis dizer. E também não tenho nada contra o professor de Estética. Tirei oito num trabalho dele, ele me adorava. Eu me formei dois anos antes dela, ela esquece que não sou nenhum idiota.
E fui me inflando. Tomava fôlego,. Estava agora convicto. Eu era um puta de um homem, um intelectual, trabalhador e politizado. Quando eu a conheci, alguns anos antes, parecia ser tudo de que ela precisava.  E se ela terminasse comigo haveria outras mil que me quereriam, outras mais maduras, menos meninas, com menos fogo no rabo, foi a imagem que me veio.
Minha amiga ficou mole na cadeira, de repente, como quem estivesse com preguiça de comentar o caso.
Eu parei por um instante. Ela bebia cerveja mais rápido do que eu.
_ E o plano de morar junto, não deu certo?
Eu havia comentado com ela que eu e a Suzana queríamos alugar um apartamento. Fiquei um pouco envergonhado.
_ É que com tudo isso…  E eu estou meio sem emprego, sem nada fixo, eu quero dizer, estou sempre fazendo alguma coisa, mas não dá para contar isso.
_ Sei. Meu apartamento está uma gracinha. Fica aqui do lado. É espaçoso, mas não tem vista. Sabe como é, não se pode ter tudo. Você toma mais uma?
Claro que eu tomava. Agora, no auge de minha indignação, sabendo que estava sendo injustiçado, que estava me passando por ridículo, não voltaria para casa tão cedo. Nunca mais talvez. A Suzana ia ver só.
Precisei ir ao banheiro.
Já no caminho comecei a pensar em uma série de coisas inteligente para dizer. Coisas ao meu respeito, coisas que provavam que não sou infantil, que tenho personalidade, cultura.
Lembrei-me então de uma história maravilhosa que ia mudar todo o rumo da conversa. Fiquei animado e corri de volta à mesa.
Tentei disfarçar que já vinha com algo pronto do banheiro.
_ O que está passando na Tv?
_ Os gols da rodada_ E ficou toda graciosa_ Adoro futebol!
_ Mas então, é complicado. A vida é mesmo uma merda, né?_ Eu sorri.
Eu lembrei de uma coisa que acho que ilustra bem o que sinto. Você já leu Esopo? (Neste momento acho que riu um pouco, não sei ao certo). Então, tem uma fábula, não lembro agora o nome. Mas é uma em que os carvalhos dizem a Zeus:
_ De que adiantou nos dar a vida? Estamos muito mais expostos a morrer sob o machado do que as outras árvores. Estavam reclamando, sabe? Então Zeus respondeu: “Vocês mesmos são os responsáveis sobre sua desgraça. Se não produzissem os cabos dos machados, e não fossem úteis aos carpinteiros, não seriam abatidos”, ou algo assim. O moral é assim, “Não acuses os Deuses…” como é que é mesmo? “Não acuses os Deuses pelos males por que és responsável”. Entendeu?
Ela olhou-me fixamente nos olhos. Sorriu. Acedeu mais um cigarro. Com a voz sufocada de fumaça na boca, disse: _Olha_ e soltou a fumaça, que foi indo, indo, deixando o ar todo enevoado. E recostou o corpo pra frente como se fosse me contar um segredo.
_ Eu vou agora lhe contar uma história. É sobre um elefante e uma formiga.
Fiquei excitadíssimo.
_ Um elefante e uma formiga conviviam na natureza. Um dia, por um motivo qualquer, contrariaram-se. Inevitavelmente entraram numa briga. Adivinha quem ganhou?
Então vamos lá, pensei eu, o elefante, a formiga, conviviam na natureza, ela disse…
E fui interrompido pela resposta.
_ O elefante.

Milena Carasso

Peace sells… but who’s buying?

27/10/2008

fado

23/10/2008

Descobri o fado por volta de 2001 com o Vitor, pai da Fabi, mas não foi nessa época que comecei a apreciar este estilo musical. Foi em 2004 com uma amiga portuguesa que, por sinal, tinha uma voz linda e adorava fado (se não me engano, ela dizia que a tia avó era uma cantora de fado). Eu lembro que eu pedia, de brincadeira, para que ela ficasse me falando ao pé do ouvido qualquer coisa com aquele sotaque lusitano. Ela dizia: Mas o que queres que eu diga? E eu dizia: Qualquer coisa, ora pois!
Bom, depois perdi o contato com Diana e também com o fado. Sobre Diana nunca mais tive notícias, mas o fado voltou aos meus ouvidos recentemente. E voltou com força, trazendo não só os dedilhados da guitarra portuguesa que já tinham me conquistado, como também a profundidade e sensibilidade do lamento em suas letras tristes.
Tenho escutado as vozes de Argentina Santos, Ada de Castro, Amália Rodrigues, entre outras, mas nenhuma me sensibiliza tanto quanto Aldina Duarte que é contemporânea, uma diva do fado novo.
Fado vem do latim; fatum, ou seja, destino. É um estilo musical triste sim, mas bonito e, para mim, relaxante.

Violeiros do Brasil

23/10/2008

Violeiros do Brasil é um documentário de Myriam Taubkin e Sérgio Roizenblit – “uma viagem musical pelo universo da viola brasileira”. Vi hoje, vale a viagem, é muito bom.

breve reflexão

23/10/2008

Ahhhhh, a condição humana. Somos mesmo anjos decaídos? Animais conscientes, fadados ao não entendimento total da vida e o eterno questionamento do mundo? Eterno não, porque somos animais e morremos. Dar aos animais a consciência foi uma jogada de mestre. Como humanos, cagamos e peidamos, mas acredite, somos capazes de amar e criar. Não apenas procriar e criar. Somos capazes de transcender através das artes, da filosofia, do amor, da percepção do mundo. Sempre cagando e peidando, todo dia. Será que o sublime é isso? Sermos bondosos e cruéis? Bichos racionais com instintos e bom senso? Sabermos da nossa própria complexidade e também das nossas necessidades animais, viscerais? Toda essa inconstância sentimental, essa instabilidade. Nada é permanente, exceto a mudança?
A condição humana. Puta que pariu. Quando me afastei fisica e mentalmente de tudo o que eu conhecia, tive experiências e percepções que prometi nunca esquecer. Acho que quando perdemos a capacidade de nos admirarmos com as coisas e com as pessoas, perdemos muito, não tudo, mas muito. É preciso ser curioso, mergulhar, aprofundar e deslumbrar-se. Essa capacidade é que gera a criatividade, a força para remar, a gana de querer mais, de conhecer mais. Para mim serve de alimento da alma. E isso de nada tem a ver com idade, maturidade e etc. Essa chama quero manter acesa em mim até o meu último dia de vida. A sensibilidade de um homem é seu gênio, não deve nunca ser desprezada.
O que importa realmente? Chegamos nesse cenário e nos deram um tempo aproximado de vida. Até aí tudo bem. E agora? Viver todo mundo vive, é preciso navegar. Entre viver e sobreviver, existe uma lacuna gigantesca a ser preenchida. Conhecimento, amor, laços, realizações… Quanto mais enfrento as tempestades mais fica em mim o essencial e verdadeiro.

rilke – trecho

22/10/2008

“Assim, aqueles que se juntam durante as noites e se entrelaçam em uma volúpia agitada fazem um trabalho sério, reúnem doçuras, profundidade e força para a canção de algum poeta vindouro que surgirá para expressar deleites indivisíveis.” R.M. Rilke

21/10/2008

Si male nunc, non oline sic erit… Fulsere quondone cuandidi tibe soles!

algumas

20/10/2008

Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.
(Clarisse Lispector)

Leão

17/10/2008

Há mais ou menos dois anos, quando criei este blog, meu irmão Daniel, me escreveu um texto nos comentários de boas vindas. Estava dando uma olhada em postagens antigas do blog e o encontrei aqui. Hoje, o texto fez muito sentido para mim. A minha interpretação foi diferente daquela que tive na primeira vez que o li. Nem melhor, nem pior, apenas diferente. De qualquer forma, gosto muito do texto e por isso estou publicando aqui.

O Leão rugia por dentro enquanto o grupo de ovelhas atravessava sua planície. A proteção dos pastores, armados até os dentes, impedia que o leão exercesse suas atividades, satisfizesse seus desejos e instintos. Leão não podia mais, rangia os dentes, andava de um lado para o outro, cavava buracos enormes com suas bolachudas patas. A tensão de leão do Leão transbordava, aumentada pelo calor e pelos vários dias de fome. Leão tremia, mas não de um tremor de medo, nem um tremor saudável de excitação e ansiedade. Tremia de fúria incontida. Babava, suava. Era leão e não podia controlar seus mais profundos instintos.
O Leão olhou fixamente para o rebanho que encontrava-se a uns 80 metros. Retesou os músculos do corpo inteiro e descansou sua alma. Partiu radiante, a juba balançando ao vento, acompanhando o movimento dos saltos. A velocidade controlada, as passadas seguras, potentes. Cena grandiosa, de rara beleza. O estrago não contava naquele momento. Nem mesmo a fome. Tudo era ato. O Leão era ato… estupendo. Tudo do Leão, tudo de leão, resumido em alguns segundos de beleza. Avançando, agora livre, guiado pelo cheiro, pelo som que o vento trazia, pelo costume, pelo desejo, pelo instinto, pela sua própria razão de ser. Não importavam os tiros das carabinas em sua direção, sentia apenas o odor do terror que as ovelhas exalavam, e como não podia deixar de ser, o néctar inebriante do gosto do sangue. O Leão não sabe, mas foi abatido feliz, leão, integralmente leão.

Daniel Carasso

Sobre cerca de um minuto de pensamento

16/10/2008

Há cerca de um mês roubaram meu carro e ainda não comprei outro. Voltei a andar de busão e táxi pela selva de pedras. Outro dia saí da produtora de um amigo na Consolação e peguei um ônibus para a Vila Madalena. Estava com fones de ouvido, escutando Camille.

Consegui sentar e fiquei viajando no som, tentando me distanciar um pouco da loucura que é o interior de um ônibus em São Paulo numa tarde de sexta-feira. Porém, inquieto que sou, acabei por observar as pessoas que estavam ali. Então, me deparei com uma garota, uma adolescente que devia ter uns 13 anos de idade. Ela estava aparentemente angustiada, os olhos se moviam desconfiados para todos os lados enquanto ela guardava o troco da passagem na mochila. Devia estar voltando da escola.

Fiquei observando e imaginando o que passava pela cabeça daquela menina de classe média que parecia tão triste naquele momento. Sei lá, tantos medos, incertezas, curiosidades, todas as mudanças que acontecem nesta fase da vida.

O corpo mudando. Aquele sangue que agora saía dela. Os peitos que cresciam a cada dia e doíam. Aqueles pêlos novos. O namoradinho da escola que só queria transar (ela sentia que ele não a amava). O lance da virgindade (a melhor amiga já não era mais virgem). Os pais enchendo o saco por tudo. O mundo contra ela. A outra ex-melhor-amiga invejosa fazendo complô contra ela. A prova de matemática daquela professora filha da puta na segunda-feira. O boletim com duas notas vermelhas que renderiam um castigo (talvez apenas uma bronca grande). O vizinho mais velho que ela amava loucamente desde os 10 anos e que olhava pra ela como se ela fosse uma criança (porra, ela já não era mais criança). O show do NXZero que ela não tinha idade para entrar (tentou falsificar a identidade mas ficou uma merda). Aquele celular que ela queria tanto, mas sabia que o pai não ia dar nunca (cabiam mais de 100 músicas em mp3 e tirava fotos e vídeos em uma puta resolução).

Porra, que vida é essa caralho? Ela queria chorar. O que ela queria mesmo era aquele vocalista da banda fazendo uma serenata surpresa para ela no meio da aula pra que todos pudessem ver e ter inveja dela e admirá-la. Ela queria sonhar sim. Sair. Ir para fora dela mesma. Ela era muito mais do que todos achavam dela. Ela queria mais que essa bosta toda.

Tive vontade de dizer para ela ficar tranqüila, que as coisas na vida vão se resolvendo aos poucos, e que ela poderia ser e fazer o que quisesse, que muito ainda estava por vir. Tive vontade de dizer que a vida é foda mesmo, isso não vai mudar, estas angústias passarão, mas virão outras, mais sérias ainda, e que ela estaria mais preparada para tentar enfrentar uma a uma, a cada dia, todo dia.

Mas eu não sei nada sobre essa garota, tudo isso foi só o que imaginei em questão de meio minuto. Posso ter me enganado completamente (provavelmente eu tenha me enganado completamente). Porque depois passou uma senhora bem idosa e eu ofereci meu assento e fui para o fundo do ônibus onde fiquei em pé e comecei a observar uma tia maluca cheia de piercings e uma tatuagem no pescoço. Aí fiquei imaginando se…

(not) shy moon

14/10/2008

02:37

sol, lua, eu

13/10/2008

Mais uma vez o Sol se põe e surgem cores bizarras no céu. Um belo pôr do Sol e cores realmente bizarras na seqüência. Vermelho, roxo, lilás, azul, preto, cinza, amarelo, laranja e um quase verde. Amanhã será noite de Lua Cheia. Ela fica Cheia depois Minguante, depois Nova, depois Crescente e depois a Lua fica Cheia de novo. Há exatos 5 meses que olho todas as noites para o céu e procuro a minha amiga Lua. Nem sempre a encontro no céu. Quando ela está aparente, fico observando calado. Sinto que a Lua sempre tem algo a dizer para quem se permite escutar. Quando a Lua está assim Cheia ela me instiga; sinto mais cheiros, minha visão fica aprimorada, o gosto também fica mais apurado. O tesão multiplica. Um lance meio lobisomem mesmo, vampiro, sei lá. Gosto muito da Lua, mas ainda prefiro o Sol. O Sol tem luz própria, ilumina e aquece. Sem o Sol, o que seria da Lua?

l’histoire d’un papillon

08/10/2008

Ela voava alto, colorida e contente, de repente, cortaram as asas da borboleta. Ela caiu no chão e, desesperada, se arrastou até um canto desviando das pesadas daqueles que não a enxergavam. Ficou por um tempo neste cantinho passando frio, sozinha. Soprou um vento forte naquela noite e a borboleta mutilada foi levada, pairando pelo ar num vôo sem asas, até um jardim de margaridas. Teve esperança, imaginou que ali seria acolhida, poderia no calor das flores recuperar-se e refazer suas asas para poder voar novamente. Porém, era uma noite fria demais, as margaridas estavam fechadas e adormecidas, não notaram a aparição da borboleta. Quando amanheceu, a borboleta já estava morta, não por ter tido as asas cortadas. A linda borboleta morreu de frio e solidão, rodeada de flores.

Eu – na visão alcoolizada do Dib

08/10/2008