
Pequeno conto que fiz faz tempo, não lembro quando, achei aqui…taí!
Saltou da cama atrasada naquela manhã de segunda-feira. Marlene sabia que o atraso renderia uma cagação de regra fenomenal por parte do seu chefe – o Dr. Armando (que diga-se de passagem de doutor não tinha nada).
O ônibus também resolveu demorar nesta manhã, Marlene esperou cerca de 20 minutos até que o 875C passasse. Parecia que tudo estava voltado contra ela. A calcinha apertada estava incomodando como nunca, Marlene já não era mais aquela mulher que “parava tudo” por onde passava, no entanto, tinha a beleza típica das mulheres tristes.
O cobrador, como sempre tarado, não tirava os olhos do decote dela. Se havia uma coisa que ela odiava, era aquele cobrador com olhar de bicho do mato, sedento por uma presa. Realmente o olhar daquele homem era nojento, daqueles que come com os olhos, sem talheres e se suja todo.
Já no elevador, de frente para o espelho, Marlene mirou seu reflexo e pensou em chorar, mas só pensou mesmo, arrumou o cabelo, endireitou o sutiã e a calcinha, ergueu a cabeça e rumou para o escritório, pronta para a cara feia de seu chefe.
- Acabou a luz na sua casa moça? Não tocou o despertador? Bem, têm muitos telefonemas para você atender, cartas para separar e outras tantas reuniões para você servir o cafezinho. Você sabe, né, sem cafezinho isso aqui não funciona!
- Desculpa Dr. Armando. O despertador tocou, sim. Eu é que estava com uma dor de cabeça chata… Meu domingo foi horrível!
Domingo sempre fora um dia triste na vida de Marlene, além disso, ela estava cansada daquela vida de bosta, um bando de filhos da puta dando ordens e pouco se fodendo se ela estava numa puta depressão, a ponto de lançar-se pela janela do apartamento pequeno, velho e cagado em que vivia.
Marlene, queria quebrar tudo, mandar todos à merda, detonar uma granada contra seu próprio peito, sem se importar se na explosão também morreriam seus colegas escrotos, que nunca lhe tiveram respeito. Porém, ela não tinha forças, a depressão é uma doença cão, derruba até os fortes de alma, no deslize sorrateiro em que surge. A moça estava apática, mas suportou, submersa em seu fim de mundo, todas as 8 horas de batente. Andou até o ponto, esperou e pegou o ônibus. Pelo cobrador, ela não foi notada. Essa mulher Marlene já não existia, estava morta.