Quando cheguei no bar, naquela tarde, ela já me esperava, aparentemente há algum tempo_ uma garrafa de cerveja jazia pela metade_ e sem ansiedade alguma. Assistia a um noticiário na TV e fumava um cigarro. Quando entrei, como se pressentisse minha presença, olhou para trás, viu-me, e sorriu discretamente voltando a olhar o televisor. Arrumou os cabelos, como quem não tivesse mais o que fazer nos segundos de espera entre eu na porta e eu ao seu lado., e talvez para me lembrar de que era mulher, penso eu.
Cumprimentei-a. Estava irrequieto, mas isso é algo que só agora, retrospectivamente, vejo com clareza.
Como sempre, minha amiga parecia bastante animada e confiante. Era comum que ao lado dela sentisse que sou daqueles homens que sofrem sem necessidade; sua forma pacífica e despreocupada de lidar com os acontecimentos me despertava uma incerteza profunda sobre a legitimidade de sua alegria. Desde sempre achei que o sofrimento fosse sinal de amadurecimento, que não levar as coisas a sério era uma evasão, uma fuga. Mas a ela estas filosofias não pareciam atingir, ainda que fosse alguém muito inteligente.
Pedi um copo. O que eu queria era mesmo dizer o quanto estava puto com a Suzana, chamar aquele velho de careca escroto, talvez agarrá-la pelos cabelos só por vingança. Mas não podia; aprendi, ou julgava ter aprendido como grande ensinamento, que é no comedimento e parcimônia que se encontram os atos mais sábios. E que, ainda que nos custe uma repressão inefável, é nos gestos mais sutis que se demonstra superioridade e calma.
Perguntei como ela estava. Ela me disse que ia bem, trabalhando muito. Como uma puta no carnaval, foi a expressão que usou, e que me fez rir. Uma vulgaridade desculpada. Fiz mais uma ou outra pergunta. Enquanto gesticulava para que o garçom nos atendesse, ela quis saber de mim:
_ E você querido, como anda?
_ Eu vou indo.
_ Aonde?
_ Como?
_ Vai indo aonde?
_Ah… Não é… É que eu e a Suzana, sabe, não sei, tá meio complicado.
_ Vocês brigaram.
Não foi uma briga, era isso que eu queria dizer, era isso que tentei dizer entre um gole e outro. A Suzana nos últimos tempos tinha dado para acusar-me, com freqüência, de ser infantil. Um dia, por ocasião de uma crise de ciúme, chamou-me mesmo de fraco, e virou-me a cabeça quase me dando um tapa com seu rabo de cavalo. Suzana tem cabelos pretos e bem grossos, e anda, comumente, com roupa de ginástica. O problema, eu estava certo, no entanto, era com ela. Estava insegura quanto ao futuro, vivia ansiosa e tomava vez ou outra um Rivotril. Não era assim que se resolviam as coisas, eu tentei alertá-la, mas ela já não me ouvia. Por fim, numa sexta-feira, demorou a atender o celular, depois atendeu muito incomodada e disse que estava na Ioga, que não ia deixar o celular ligado na Ioga, que ninguém deixava o celular ligado na Ioga. Não fosse o bastante chamou o professor de Estética, um senhor de quase sessenta e sem cabelos, para um café. Quando cheguei para pegá-la, estava rindo. O que tem a dizer de engraçado um professor de Estética?
Ela ouvia cuidadosamente. Sua atenção era tanta, que por alguns momentos sentia que era, apesar de uma atitude muito nobre, uma desproporção.
Quando fiz uma pausa, esticou os olhos e suspirou.
Talvez fosse falar alguma coisa, mas eu a interrompi porque lembrei de acrescentar algo muito importante.
_ E eu respeito muito a Ioga. Fiz um curso de Budismo, uma vez, lá na faculdade. Eu sei que não dá para deixar o celular ligado, não foi isso que quis dizer. E também não tenho nada contra o professor de Estética. Tirei oito num trabalho dele, ele me adorava. Eu me formei dois anos antes dela, ela esquece que não sou nenhum idiota.
E fui me inflando. Tomava fôlego,. Estava agora convicto. Eu era um puta de um homem, um intelectual, trabalhador e politizado. Quando eu a conheci, alguns anos antes, parecia ser tudo de que ela precisava. E se ela terminasse comigo haveria outras mil que me quereriam, outras mais maduras, menos meninas, com menos fogo no rabo, foi a imagem que me veio.
Minha amiga ficou mole na cadeira, de repente, como quem estivesse com preguiça de comentar o caso.
Eu parei por um instante. Ela bebia cerveja mais rápido do que eu.
_ E o plano de morar junto, não deu certo?
Eu havia comentado com ela que eu e a Suzana queríamos alugar um apartamento. Fiquei um pouco envergonhado.
_ É que com tudo isso… E eu estou meio sem emprego, sem nada fixo, eu quero dizer, estou sempre fazendo alguma coisa, mas não dá para contar isso.
_ Sei. Meu apartamento está uma gracinha. Fica aqui do lado. É espaçoso, mas não tem vista. Sabe como é, não se pode ter tudo. Você toma mais uma?
Claro que eu tomava. Agora, no auge de minha indignação, sabendo que estava sendo injustiçado, que estava me passando por ridículo, não voltaria para casa tão cedo. Nunca mais talvez. A Suzana ia ver só.
Precisei ir ao banheiro.
Já no caminho comecei a pensar em uma série de coisas inteligente para dizer. Coisas ao meu respeito, coisas que provavam que não sou infantil, que tenho personalidade, cultura.
Lembrei-me então de uma história maravilhosa que ia mudar todo o rumo da conversa. Fiquei animado e corri de volta à mesa.
Tentei disfarçar que já vinha com algo pronto do banheiro.
_ O que está passando na Tv?
_ Os gols da rodada_ E ficou toda graciosa_ Adoro futebol!
_ Mas então, é complicado. A vida é mesmo uma merda, né?_ Eu sorri.
Eu lembrei de uma coisa que acho que ilustra bem o que sinto. Você já leu Esopo? (Neste momento acho que riu um pouco, não sei ao certo). Então, tem uma fábula, não lembro agora o nome. Mas é uma em que os carvalhos dizem a Zeus:
_ De que adiantou nos dar a vida? Estamos muito mais expostos a morrer sob o machado do que as outras árvores. Estavam reclamando, sabe? Então Zeus respondeu: “Vocês mesmos são os responsáveis sobre sua desgraça. Se não produzissem os cabos dos machados, e não fossem úteis aos carpinteiros, não seriam abatidos”, ou algo assim. O moral é assim, “Não acuses os Deuses…” como é que é mesmo? “Não acuses os Deuses pelos males por que és responsável”. Entendeu?
Ela olhou-me fixamente nos olhos. Sorriu. Acedeu mais um cigarro. Com a voz sufocada de fumaça na boca, disse: _Olha_ e soltou a fumaça, que foi indo, indo, deixando o ar todo enevoado. E recostou o corpo pra frente como se fosse me contar um segredo.
_ Eu vou agora lhe contar uma história. É sobre um elefante e uma formiga.
Fiquei excitadíssimo.
_ Um elefante e uma formiga conviviam na natureza. Um dia, por um motivo qualquer, contrariaram-se. Inevitavelmente entraram numa briga. Adivinha quem ganhou?
Então vamos lá, pensei eu, o elefante, a formiga, conviviam na natureza, ela disse…
E fui interrompido pela resposta.
_ O elefante.
Milena Carasso