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um conto qq

05/06/2009

redgirl

Ela gostava de transar ouvindo Depeche Mode. Nunca me esquecerei disso. Acendia velas com cheiro por toda casa e deixava sempre uma jarra de água e dois copos no criado mudo ao lado da cama. Morava sozinha em um apartamento grande e super bem decorado no Itaim. Nas paredes havia fotos grandes enquadradas, todas em preto e branco. Eram fotos de paisagens e gente, tiradas nas diversas viagens que fez pelo mundo. Índia, China, Praga, África do Sul, entre outros lugares.

Eu tinha 20 anos naquela época e aprendi muito com aquela mulher. Ela era delicada, inteligente e experiente. Conhecia o mundo todo; manjava de arte, música, sexo e lances espirituais. Ficamos durante uns 6 meses. Na maioria das vezes na casa dela. Era muito sexo, mas não só sexo. Passávamos horas a fio deitados nus, conversando, fumando haxixe e tomando vinho. Ela dizia que não fumava maconha porque dava sono, mas haxixe a deixava numa boa. Eu adorava, naquela época eu ainda fumava e não tinha grana para comprar haxixe e nem sabia onde encontrar.

O que eu achava mais louco é que ela não tinha ciúme algum, nem eu. No máximo ela dizia algo como: Você não vai fazer o que a gente faz aqui com essas meninhas da faculdade, né? E eu dizia: Claro que não, minha linda.
Ela sabia que eu ficava com outras mulheres, já eu nunca quis saber se, durante aquele tempo, ela ficou com outros caras. Eu acho que não, pelo menos, prefiro pensar assim.

Geralmente a gente se encontrava às 5as feiras, mas às vezes também aos Domingos. A última vez que nos vimos foi em um Domingo. Cheguei na casa dela e ela estava com um vestido branco, bem fininho, devia ser seda. Lembro direitinho. Eu fui lá para me despedir. Estava indo passar um ano fora do país. Austrália, a onda perfeita e os saltos de canguru. Ela sabia dos meus planos e me dava a maior força. Na hora que contei que, enfim, tinha comprado a passagem e tudo mais, ela abriu um sorriso triste e disse: Vou te perder para o mundo bonitão, mas estou feliz por você!

A ultima transa foi diferente de todas as outras. Existia uma certa dor, uma saudade antecipada; uma suspeita, que depois se confirmou, de que aquela seria nossa última noite.

Karina, com K. Um cheiro de baunilha que no me olvidaré jamás.

da gaveta

26/03/2009

snsf

Pequeno conto que fiz faz tempo, não lembro quando, achei aqui…taí!

Saltou da cama atrasada naquela manhã de segunda-feira. Marlene sabia que o atraso renderia uma cagação de regra fenomenal por parte do seu chefe – o Dr. Armando (que diga-se de passagem de doutor não tinha nada).
O ônibus também resolveu demorar nesta manhã, Marlene esperou cerca de 20 minutos até que o 875C passasse. Parecia que tudo estava voltado contra ela. A calcinha apertada estava incomodando como nunca, Marlene já não era mais aquela mulher que “parava tudo” por onde passava, no entanto, tinha a beleza típica das mulheres tristes.

O cobrador, como sempre tarado, não tirava os olhos do decote dela. Se havia uma coisa que ela odiava, era aquele cobrador com olhar de bicho do mato, sedento por uma presa. Realmente o olhar daquele homem era nojento, daqueles que come com os olhos, sem talheres e se suja todo.

Já no elevador, de frente para o espelho, Marlene mirou seu reflexo e pensou em chorar, mas só pensou mesmo, arrumou o cabelo, endireitou o sutiã e a calcinha, ergueu a cabeça e rumou para o escritório, pronta para a cara feia de seu chefe.

- Acabou a luz na sua casa moça? Não tocou o despertador?  Bem, têm muitos telefonemas para você atender, cartas para separar e outras tantas reuniões para você servir o cafezinho. Você sabe, né, sem cafezinho isso aqui não funciona!

- Desculpa Dr. Armando. O despertador tocou, sim. Eu é que estava com uma dor de cabeça chata… Meu domingo foi horrível!

Domingo sempre fora um dia triste na vida de Marlene, além disso, ela estava cansada daquela vida de bosta, um bando de filhos da puta dando ordens e pouco se fodendo se ela estava numa puta depressão, a ponto de lançar-se pela janela do apartamento pequeno, velho e cagado em que vivia.

Marlene, queria quebrar tudo, mandar todos à merda, detonar uma granada contra seu próprio peito, sem se importar se na explosão também morreriam seus colegas escrotos, que nunca lhe tiveram respeito. Porém, ela não tinha forças, a depressão é uma doença cão, derruba até os fortes de alma, no deslize sorrateiro em que surge. A moça estava apática, mas suportou, submersa em seu fim de mundo, todas as 8 horas de batente. Andou até o ponto, esperou e pegou o ônibus. Pelo cobrador, ela não foi notada. Essa mulher Marlene já não existia, estava morta.

O Barco do Homem

15/02/2009

No dia em que ganhou dinheiro, todo o dinheiro do mundo, foi morar num barco. Foi realizar seu sonho.
Nos primeiros tempos fez inúmeras expedições, viajou, navegou, conheceu quantos lugares e pessoas e culturas. Queria sua dose de aventura. O barco ia, subia, descia, subia, descia. Enchia os pulmões de um ar marítimo, um ar espesso, se aprofundava e ganhava centro.
Quando por vezes punha os pés em terra firme sentia-se enjoado, marejado, sentia falta do sobe e desce. Mas no barco, algumas vezes sem explicação nenhuma,  atracado ou em alto mar, também sentia-se enjoado e marejado. Nunca entendeu isso, nem os meses nem os anos tiravam a sensação, vez por outra, do marinheiro de primeira viagem.
A vida no barco era vida normal. Vivia próximo à costa. Não comia peixe três vezes ao dia; de marinheiro tinha apenas o tom do sol da pele do rosto, da nuca e dos anti-braços. O barco era casa completa, fogão, geladeira, farmácia, biblioteca, cama de molas, mas claro, o barco subia e descia.
Quando ganhou idade espaçou as excursões, as paradas duravam mais, também o barco ganhava rugas e pedia tempos mais tranquilos. Baixaram juntos o metabolismo.
Tinha os tempos mornos, os tempos de cabine, de escrita, de leitura, até mesmo de televisão. Mas cabiam sempre, quase que diariamente, os relâmpagos que pagavam a conta, que curavam as dores, que coloriam as ruas cinzentas da infância. Resvalava as nuvens: O primeiro cigarro do dia na proa, o mergulho gelado no dia escaldante, a companhia terapêutica de um golfinho, a descoberta de uma ilha a descobrir, o vento no rosto e no interior das bochechas, o sol que renascia após uma tempestade, convidando o corpo pra esticar, deitar no deck de papo pro ar, para secar junto, até que o esqueleto e a madeira ranjessem na mesma frequência, como  se a fratura do osso consolidasse no fêmur do barco. E o último cigarro do dia, ancorado a alguns metros das rochas, acobertado pelo véu de estrelas, escutando o canto dos bichos do morro afinados  com as ondas do mar.
De vez em quando fazia contas, queria saber, passava mais tempo atracado, navegando? Difícil calcular, dependia tanto. No inverno se debruçava no alto-mar, fugia das praias, dos portos e marinas, apreciava a solidão e se aquecia de pensamentos. Já no verão repousava o barco e perdia dias a observar a vida no solo, os turistas, os castelos de areia, o leva e traz dos pescadores.
Depois de anos de barco, tinha aprendido algo sobre os céus, conseguia prever o quando, a duração, a direção e até a temperatura das chuvas. Não se perdia nas voltas do sol e dominava os mais variados desenhos e cores das nuvens. Dos mares, por outro lado, estranhamente pouco aprendeu. Invejava os pescadores, marinheiros e surfistas, que desvendavam as ondulações, os verdes, os turquesas, as correntezas. Ele não. Anos e anos, e não entendia o mar. Era pego de surpresa, empurrado para fora do rumo escolhido, às vezes empacava sem razão aparente. Não via vindo as ondas que encharcavam a proa. Culpava o barco, chutava o barco, o mar irritava, por quê era tão indomável? Que tanto mistério é esse?  E o enjôo, que volta e meia voltava, o “mal de mer”.
Envelheceu no barco e um dia veio a doença. O médico subiu a bordo e anunciou solenemente que a travessia estava chegando ao fim.
Não dormiu naquela noite, e como qualquer um na situação repensou seu percurso. Encontrou pouco que o emocionasse, então pensou para frente, no que faria com o pouco tempo que restava. De início pensou em largar o barco, voltar à terra firme, ir para a cidade, o campo.  Pensou também em lançar o barco ao léu e sumir no azul, ou no turquesa, da última linha do horizonte. Mas de manhã já tinha decisão firme e irrevogável. Não pularia do barco. Queria na verdade conhecer um rio.
Arranjou para que os levassem ao alto do rio, ele e o barco.
Passou seus últimos dias descendo o rio, fumando cigarros na proa, na popa, no deck. O barco fluía, deslizava, descia, descia, descia. Percebeu que no rio não tinha enjôos. E ele foi amando o rio, amarado ao barco, que o rio rumava, que o rio guiava, o barco, que lhe carregava, que lhe carregou.
Morreu antes de realizar seu sonho.
Morreu antes de desembocar no mar,
que aguardava o rio,
que deslisava o barco,
que deslisava o rio,
que procurava o mar.

Daniel Carasso

conto

08/11/2008

Quando cheguei no bar, naquela tarde, ela já me esperava, aparentemente há algum tempo_ uma garrafa de cerveja jazia pela metade_ e sem ansiedade alguma. Assistia a um noticiário na TV e fumava um cigarro. Quando entrei, como se pressentisse minha presença, olhou para trás, viu-me, e sorriu discretamente voltando a olhar o televisor. Arrumou os cabelos, como quem não tivesse mais o que fazer nos segundos de espera entre eu na porta e eu ao seu lado., e talvez para me lembrar de que era mulher, penso eu.
Cumprimentei-a. Estava irrequieto, mas isso é algo que só agora, retrospectivamente, vejo com clareza.
Como sempre, minha amiga parecia bastante animada e confiante. Era comum que ao lado dela sentisse que sou daqueles homens que sofrem sem necessidade; sua forma pacífica e despreocupada de lidar com os acontecimentos me despertava uma incerteza profunda sobre a legitimidade de sua alegria. Desde sempre achei que o sofrimento fosse sinal de amadurecimento, que não levar as coisas a sério era uma evasão, uma fuga. Mas a ela estas filosofias não pareciam atingir, ainda que fosse alguém muito inteligente.
Pedi um copo. O que eu queria era mesmo dizer o quanto estava puto com a Suzana, chamar aquele velho de careca escroto, talvez agarrá-la pelos cabelos só por vingança. Mas não podia; aprendi, ou julgava ter aprendido como grande ensinamento, que é no comedimento e parcimônia que se encontram os atos mais sábios. E que, ainda que nos custe uma repressão inefável, é nos gestos mais sutis que se demonstra superioridade e calma.
Perguntei como ela estava. Ela me disse que ia bem, trabalhando muito. Como uma puta no carnaval, foi a expressão que usou, e que me fez rir. Uma vulgaridade desculpada. Fiz mais uma ou outra pergunta. Enquanto gesticulava para que o garçom nos atendesse, ela quis saber de mim:
_ E você querido, como anda?
_ Eu vou indo.
_ Aonde?
_ Como?
_ Vai indo aonde?
_Ah… Não é… É que eu e a Suzana, sabe, não sei, tá meio complicado.
_ Vocês brigaram.
Não foi uma briga, era isso que eu queria dizer, era isso que tentei dizer entre um gole e outro. A Suzana nos últimos tempos tinha dado para acusar-me, com freqüência, de ser infantil. Um dia, por ocasião de uma crise de ciúme, chamou-me mesmo de fraco, e virou-me a cabeça quase me dando um tapa com seu rabo de cavalo. Suzana tem cabelos pretos e bem grossos, e anda, comumente, com roupa de ginástica.  O problema, eu estava certo, no entanto, era com ela. Estava insegura quanto ao futuro, vivia ansiosa e tomava vez ou outra um Rivotril. Não era assim que se resolviam as coisas, eu tentei alertá-la, mas ela já não me ouvia.  Por fim, numa sexta-feira, demorou a atender o celular, depois atendeu muito incomodada e disse que estava na Ioga, que não ia deixar o celular ligado na Ioga, que ninguém deixava o celular ligado na Ioga. Não fosse o bastante chamou o professor de Estética, um senhor de quase sessenta e sem cabelos, para um café. Quando cheguei para pegá-la, estava rindo. O que tem a dizer de engraçado um professor de Estética?
Ela ouvia cuidadosamente. Sua atenção era tanta, que por alguns momentos sentia que era, apesar de uma atitude muito nobre, uma desproporção.
Quando fiz uma pausa, esticou os olhos e suspirou.
Talvez fosse falar alguma coisa, mas eu a interrompi porque lembrei de acrescentar algo muito importante.
_ E eu respeito muito a Ioga. Fiz um curso de Budismo, uma vez, lá na faculdade. Eu sei que não dá para deixar o celular ligado, não foi isso que quis dizer. E também não tenho nada contra o professor de Estética. Tirei oito num trabalho dele, ele me adorava. Eu me formei dois anos antes dela, ela esquece que não sou nenhum idiota.
E fui me inflando. Tomava fôlego,. Estava agora convicto. Eu era um puta de um homem, um intelectual, trabalhador e politizado. Quando eu a conheci, alguns anos antes, parecia ser tudo de que ela precisava.  E se ela terminasse comigo haveria outras mil que me quereriam, outras mais maduras, menos meninas, com menos fogo no rabo, foi a imagem que me veio.
Minha amiga ficou mole na cadeira, de repente, como quem estivesse com preguiça de comentar o caso.
Eu parei por um instante. Ela bebia cerveja mais rápido do que eu.
_ E o plano de morar junto, não deu certo?
Eu havia comentado com ela que eu e a Suzana queríamos alugar um apartamento. Fiquei um pouco envergonhado.
_ É que com tudo isso…  E eu estou meio sem emprego, sem nada fixo, eu quero dizer, estou sempre fazendo alguma coisa, mas não dá para contar isso.
_ Sei. Meu apartamento está uma gracinha. Fica aqui do lado. É espaçoso, mas não tem vista. Sabe como é, não se pode ter tudo. Você toma mais uma?
Claro que eu tomava. Agora, no auge de minha indignação, sabendo que estava sendo injustiçado, que estava me passando por ridículo, não voltaria para casa tão cedo. Nunca mais talvez. A Suzana ia ver só.
Precisei ir ao banheiro.
Já no caminho comecei a pensar em uma série de coisas inteligente para dizer. Coisas ao meu respeito, coisas que provavam que não sou infantil, que tenho personalidade, cultura.
Lembrei-me então de uma história maravilhosa que ia mudar todo o rumo da conversa. Fiquei animado e corri de volta à mesa.
Tentei disfarçar que já vinha com algo pronto do banheiro.
_ O que está passando na Tv?
_ Os gols da rodada_ E ficou toda graciosa_ Adoro futebol!
_ Mas então, é complicado. A vida é mesmo uma merda, né?_ Eu sorri.
Eu lembrei de uma coisa que acho que ilustra bem o que sinto. Você já leu Esopo? (Neste momento acho que riu um pouco, não sei ao certo). Então, tem uma fábula, não lembro agora o nome. Mas é uma em que os carvalhos dizem a Zeus:
_ De que adiantou nos dar a vida? Estamos muito mais expostos a morrer sob o machado do que as outras árvores. Estavam reclamando, sabe? Então Zeus respondeu: “Vocês mesmos são os responsáveis sobre sua desgraça. Se não produzissem os cabos dos machados, e não fossem úteis aos carpinteiros, não seriam abatidos”, ou algo assim. O moral é assim, “Não acuses os Deuses…” como é que é mesmo? “Não acuses os Deuses pelos males por que és responsável”. Entendeu?
Ela olhou-me fixamente nos olhos. Sorriu. Acedeu mais um cigarro. Com a voz sufocada de fumaça na boca, disse: _Olha_ e soltou a fumaça, que foi indo, indo, deixando o ar todo enevoado. E recostou o corpo pra frente como se fosse me contar um segredo.
_ Eu vou agora lhe contar uma história. É sobre um elefante e uma formiga.
Fiquei excitadíssimo.
_ Um elefante e uma formiga conviviam na natureza. Um dia, por um motivo qualquer, contrariaram-se. Inevitavelmente entraram numa briga. Adivinha quem ganhou?
Então vamos lá, pensei eu, o elefante, a formiga, conviviam na natureza, ela disse…
E fui interrompido pela resposta.
_ O elefante.

Milena Carasso

Sobre cerca de um minuto de pensamento

16/10/2008

Há cerca de um mês roubaram meu carro e ainda não comprei outro. Voltei a andar de busão e táxi pela selva de pedras. Outro dia saí da produtora de um amigo na Consolação e peguei um ônibus para a Vila Madalena. Estava com fones de ouvido, escutando Camille.

Consegui sentar e fiquei viajando no som, tentando me distanciar um pouco da loucura que é o interior de um ônibus em São Paulo numa tarde de sexta-feira. Porém, inquieto que sou, acabei por observar as pessoas que estavam ali. Então, me deparei com uma garota, uma adolescente que devia ter uns 13 anos de idade. Ela estava aparentemente angustiada, os olhos se moviam desconfiados para todos os lados enquanto ela guardava o troco da passagem na mochila. Devia estar voltando da escola.

Fiquei observando e imaginando o que passava pela cabeça daquela menina de classe média que parecia tão triste naquele momento. Sei lá, tantos medos, incertezas, curiosidades, todas as mudanças que acontecem nesta fase da vida.

O corpo mudando. Aquele sangue que agora saía dela. Os peitos que cresciam a cada dia e doíam. Aqueles pêlos novos. O namoradinho da escola que só queria transar (ela sentia que ele não a amava). O lance da virgindade (a melhor amiga já não era mais virgem). Os pais enchendo o saco por tudo. O mundo contra ela. A outra ex-melhor-amiga invejosa fazendo complô contra ela. A prova de matemática daquela professora filha da puta na segunda-feira. O boletim com duas notas vermelhas que renderiam um castigo (talvez apenas uma bronca grande). O vizinho mais velho que ela amava loucamente desde os 10 anos e que olhava pra ela como se ela fosse uma criança (porra, ela já não era mais criança). O show do NXZero que ela não tinha idade para entrar (tentou falsificar a identidade mas ficou uma merda). Aquele celular que ela queria tanto, mas sabia que o pai não ia dar nunca (cabiam mais de 100 músicas em mp3 e tirava fotos e vídeos em uma puta resolução).

Porra, que vida é essa caralho? Ela queria chorar. O que ela queria mesmo era aquele vocalista da banda fazendo uma serenata surpresa para ela no meio da aula pra que todos pudessem ver e ter inveja dela e admirá-la. Ela queria sonhar sim. Sair. Ir para fora dela mesma. Ela era muito mais do que todos achavam dela. Ela queria mais que essa bosta toda.

Tive vontade de dizer para ela ficar tranqüila, que as coisas na vida vão se resolvendo aos poucos, e que ela poderia ser e fazer o que quisesse, que muito ainda estava por vir. Tive vontade de dizer que a vida é foda mesmo, isso não vai mudar, estas angústias passarão, mas virão outras, mais sérias ainda, e que ela estaria mais preparada para tentar enfrentar uma a uma, a cada dia, todo dia.

Mas eu não sei nada sobre essa garota, tudo isso foi só o que imaginei em questão de meio minuto. Posso ter me enganado completamente (provavelmente eu tenha me enganado completamente). Porque depois passou uma senhora bem idosa e eu ofereci meu assento e fui para o fundo do ônibus onde fiquei em pé e comecei a observar uma tia maluca cheia de piercings e uma tatuagem no pescoço. Aí fiquei imaginando se…