Um pintor decorador, mas que não trabalhava mais porque começou a beber. E como a maioria das pessoas tristes e sensíveis, que começam a beber, virou alcóolatra, e ficou mais triste. Mas era também pintor, além de pintor decorador. E pintava bonito, pintava sensível. Não que tivesse grande técnica, nem que fosse um gênio autodidata, mas pintava bonito, pintava sensível.
Como as pessoas que bebem era só. Vivia só. Como as pessoas que bebem tinha dezenas de amigos, na grande maioria amigos noturnos, amigos bêbados. Como as pessoas que bebem precisava de amigos, mas na verdade, não tinha amigos. Buscava desesperadamente o contato, buscava afeição e carinho. Queria mais do que tudo no mundo ser ouvido, ser entendido, cuidado, mas sabia bem que ninguém o entendia, em parte porque falava enrolado, misturava as idéias e os assuntos, em parte porque os que o ouviam também eram sozinhos e também queriam desesperadamente ser entendidos.
Era chato como as pessoas que bebem, e muito inconveniente. Era repetitivo e não tinha limites. Era feio como as pessoas que bebem, ainda que guardasse um mínimo de higiene e de cuidado com suas roupas e seu visual, o que o tornava ainda mais patético.
E tinha sido abandonado pela mulher há alguns anos, como as pessoas que bebem. E via cada vez menos os filhos, que estavam crescidos, e que tinham pena do pai, mas que também tinham vergonha do pai, e que também tinham uma vida própria, e que também tinham angústias e momentos obscuros e procuras desesperadas, como as pessoas.
E morava num apartamento pequeno, que dividia ora com um amigo, ora com outro. E não conseguia pagar o aluguel como as pessoas que bebem, apesar do seguro desemprego. E dormia muitas vezes fora de casa e às vezes na rua. E às vezes acordava machucado, escoriado, esfolado. E perdia moedas e documentos, como as pessoas que bebem.
E tinha os olhos sedentos quando via mulheres. E tinha o dom de falar delas como se fizesse poesia e falasse de anjos. E não tinha mais ereções e não dava mais beijo de língua.
E tinha os dedos amarelos e as unhas pretas, e tinha dores de estômago e de cabeça intermináveis. E tinha os dentes feios e cada vez mais escassos, e tinha hemorróidas e diabetes. E tinha o coração inchado e o fígado enferrujado. E tinha um projeto de câncer que daria um jeito em toda a bagunça, em segredo, sorrateiramente.
E tinha lembranças lindas que não queria lembrar.
E tinha telas lindas de mulheres redondas nuas ou seminuas, e tinha telas lindas de maçãs ou laranjas ao lado de um vaso, e tinha telas lindas de um senhor calvo e muito bem vestido, e tinha telas lindas de uma paisagem da região de Sartre.
Era um pintor decorador, mas que também era um pintor, simplesmente pintor, e pintava bonito e pintava sensível, e tinha telas lindas empilhadas num canto do quarto, entorpecidas pelo cheiro de cachaça.
Daniel Carasso