Emplacava o quarto dia sem comer. Não era a primeira vez, mas estava agora mais velho, e esses jejuns mais longos começavam a incomodar. Sua última refeição não tinha sido um banquete. Os parcos restos de uma jovem gazela, que tinham ainda lhe custado um belo entalhe na pata posterior direita; os caninos de uma hiena, eram quatro ou cinco, mais uma vez teve que ser na porrada. As coisas não estavam vindo fácil nos últimos tempos.
Não tinha ainda as alucinações que havia experimentado algumas semanas ou meses atrás, quando por conta de um embate virilmente acirrado com um rival perdera um canino inferior e ganhara uma infecção de rinoceronte. Naquela ocasião sofreu de febre por seis dias e por seis dias não comeu. Até que ao final do sexto dia, com a ajuda do crepúsculo, a febre cedeu, arrefeceu, a alucinação passou, fincou as quatro patas no solo seco da savana, levantou a cabeça, chacoalhou a juba, rugiu e, em menos de meia hora havia engolido um filhote de gnu inteiro.
Agora ainda não alucinava, mas já embaralhava os odores e as idéias. Passou o dia perambulando em vez de descansar e esperar o momento propício. Fez ida e volta beirando o rio durante horas na esperança de cruzar uma manada, ainda que soubesse que não viria manada alguma antes do entardecer. Não havia desespero, simplesmente uma certa impaciência, misturada com um jogo estranho, dele com ele mesmo, de testar a resistência da corda, de empurrar um pouco a situação, alargando as bordas dos limites. Gastou a energia que não podia, subiu e desceu pequenos morros e rochedos, apreciou suas patas enquanto esculpia sulcos em troncos de Baobás. Quantas presas não tinha dilacerado com apenas um bom e preciso golpe destas potentes patas? Quantas fêmeas não havia deitado, dobrado, com a força e destreza destas patas? Gastou algum tempo observando pequenos animais, pássaros, insetos, patos selvagens, serpentes… Não entendia muito aquilo tudo, seres inúteis para ele, não eram presas, nem concorrentes. Tinham lá seu charme, pensou. Aparentemente tinham eles também uma rotina, vontades, sentimentos, instintos. Reparou que também caçavam, alguns, outros fugiam, outros comiam plantas. Haveria maneira de se comunicar com eles? Todos fugiam, à simples aproximação das patas, as passadas, e os pequenos animais se afastavam.
Enfim chegou o entardecer e com ele os antílopes. Havia ainda suficiente sobriedade. Escolheu a moita e sumiu feito soldado camuflado. Agora era a espera, a partida de xadrez, a paciência a serviço do deleite – ou da sobrevivência? Acendeu todos os sentidos, ligou tudo no máximo. Escutava a algazarra contida do desalterar em bando. Buscava distinguir os grunhidos dos filhotes no meio da manada. Içava ainda mais as orelhas a fim de captar o chamado de uma mãe ao filhote que ameaçava se desgarrar… fungava até o âmago buscando o resquício de um bichano mais frágil, o odor do medo, da fragilidade, do sangue… Com o olhar de lanternas percorria o bando de ponta à ponta no aguardo de um mínimo deslize, aquele que mancasse um pouco…
Estranhamente ficou inerte. Sentiu como se algo o abafasse, qual um peso intenso nas costas. Manteve o ventre rente à terra, e não se moveu. Preocupou-se. Não iria conseguir caçar? O quê estava acontecendo? Que paralisia… talvez com alguma ajuda? Nenhuma ajuda? Onde estavam os crocodilos, os leopardos, as malditas hienas… Mas teria forças para brigar? Para arrancar do mundo a sua parte? Os sentidos foram recolhendo-se, foram perdendo a tensão. E adormeceu. Profundamente.
Despertou somente horas e horas depois, na noite do dia seguinte. Aí tudo já era delírio. Os sons, os odores, o frio – nunca tinha sentido frio – tudo estranho e diferente, misturando-se, confundindo-se. Tinha ao menos que beber, o rio ali do lado, as patas respondiam com dificuldade. Cambaleou até a margem, sorveu o que podia, desajeitado, molhando a juba toda… Um rebuliço de crocodilos. Teve vontade de enchê-los de patadas, arrebentar com aqueles répteis filhos da puta, bichos burros e sem classe, um dia comerei os seus filhotes… nojentos!
Vagou sem rumo. Na primeira espiada do sol da manhã sentiu um odor diferente. O vento trazia, era bicho frágil, não conhecia aquele cheiro, era doce e leitoso, vinha junto o cheiro de homem, vinha do noroeste, deviam estar a quanto? Umas 2 milhas no máximo… e foi.
Quando pôde avistá-los o odor já era massacrante. Voltou. Voltou com tudo. A fome. Puta que o pariu que fome, ficou até com tesão. Despertou, despertou completamente e vestiu-se de sua fortaleza; O Leão rugia por dentro enquanto o grupo de ovelhas atravessava sua planície. A proteção dos pastores, armados até os dentes. Leão não podia mais, rangia os dentes, andava de um lado para o outro, cavava buracos enormes com suas bolachudas patas. A tensão de leão do Leão transbordava, aumentada pelo calor e pelos vários dias de fome. Leão tremia, mas não de um tremor de medo, nem um tremor saudável de excitação e ansiedade. Tremia de fúria incontida. Babava, suava. Era leão e não podia controlar seus mais profundos instintos.
Leão olhou fixamente para o rebanho que encontrava-se a uns 80 metros. Retesou os músculos do corpo inteiro, e descansou sua alma. Partiu radiante, a juba balançando ao vento, acompanhando o movimento dos saltos. A velocidade controlada, as passadas seguras, potentes. Cena grandiosa, de rara beleza. O estrago não contava naquele momento. Nem mesmo a fome. Tudo era ato. O Leão era ato… estupendo. Tudo do Leão, tudo de leão, resumido em alguns segundos de beleza. Avançando, agora livre, guiado pelo cheiro, pelo som que o vento trazia, pelo costume, pelo desejo, pelo instinto, pela sua própria razão de ser. Não importavam os tiros das carabinas em sua direção, sentia apenas o odor do terror que as ovelhas exalavam, e como não podia deixar de ser, o néctar inebriante do gosto do sangue. Leão não sabe, mas foi abatido, feliz, leão, integralmente Leão.
Há uma outra versão que vez em quando pode ser escutada na região. Esta conta que os pastores não tinham carabinas coisa nenhuma. Velhos cajados e olhe lá. Leão teria dilacerado, literalmente partido ao meio 3 homens, dos quais provou a carne mas cuspiu pois sentiu nojo. Depois, em instantes, teria devorado 27 ovelhas, sob o olhar aterrorizado de um dos pastores que havia sido poupado e das outras 73 ovelhas que completavam o rebanho. Nesta versão, após o banquete, Leão teria dormido num montinho de relva de barriga para cima ao sol escaldante, saciado, fatigado, despreocupado… nem as moscas ousavam incomodar seu sono… e que o sono trouxe seus sonhos de Leão.
Fiquemos nós com a primeira versão, que me parece menos cruel e sanguinolenta. Poupemos nossos pastores e pobres ovelhas. Além disso, este leão-maluco parece um bocado um conhecido nosso, aquele tal de lobo-mau, comedor de vovozinhas e porquinhos fofinhos. Não é mesmo???
Daniel Carasso