Do dia que eu sentei ali, na toca do pé do prédio na rua São Bento, não levantei mais. Grudei igual que piche, que super-bondi que cola de tudo.
De sol e de vento eu ficava ali, sentado. De a chuva molhosa grudou raiz e eu a ver passar. De tudo passava, de muito joelho e sapato também. Que eu gostava mais que passava é saia; e as perna infinita, pontando pro céu. Ou então que nem raio, furando no chão. Passava salto, bicudo, de agulha; passava tropeço, passava uns arrasto de sandalia véia. Às vezes calava e não passava nada, só luz de lanterna e barata zureta.
Se eu não levantava é porque não precisava. Chegava de tudo sem nenhum pedir. Vinha uns gravatão mais bonito que cobra, que chegava perto mas ficava longe, e saía moeda, vez em quando nota. O Gordo pegava, dançava, sumia. E voltava. Voltava vermelho, risando que só, qual que maritaca, parecendo o sol. E era um anjo meu, já me dava o leite de matar minha sede, e sentava ao lado, sem fazer frescura. Me contava os causo que nós dois se ria, soviava as moça que sempre xingava e depois roncava pra chamar meu sono.
Lá pra cima era só janela. Mais que mil que eu nem contava, acendida de dia, apagada de noite. E eu imaginando o que escondia dentro. Que um dia me disseram que ali matutava só homi aprumado; os divogado, e também banqueiro.
Pra noite fria tinha os foguinzinho de lata, de cheirinho bom. Que chamava o bando, que se aconchegava, tipo assim de roda, pra girar garrafa; mão na mão, pra todas as bocas.
Lá pra fim de ano que é de Deus menino tinha as luz de festa, brilhantando à noite, até de toda as cores. Tinha mais comércio, formigando a rua. Que eu nada entendia dessas venda toda, mas que me gostava. “Tem cinto de couro! Tem pulseira, colar, quase de ouro! Tem os brinquedinho, mexendo sozinho, rodante, falante; três pagando dois.
Té que um dia veio uns homi grande, de bigode baboso, feito cão com raiva.
Só não rueram minha alma, que essa escapuliu pra cima feito rojão. Subiu subindo levezinha, sem dar conta lá de baixo, que se apequinava tudo. Foi dobrando os urubus, soltinha, ventosa. Foi mais alto que os prédios da São Bento
E só se quietou quando avistou o Gordo. Assentadão que tava, igual de sempre, o barrigão peludo, seis dedo vez de dez, o bonezinho do Parmeiras, se apagando. E riando, riando. Riando que não respirava. Nunca mais arrespirou.
Daniel Carasso