O rapaz ia percorrendo seu caminho
E como não podia deixar de ser
No meio do caminho tinha uma pedra
Contrariado, chutou a pedrinha. Mas machucou o dedo
A pedrinha rolou e parou mais à frente, no meio do caminho
Entendeu, chutar não resolvia. Baixou-se, pegou a pedrinha e colocou-a no bolso. E foi
Continuou o caminho. Nas retas e nas curvas, pedrinhas. Invariavelmente encontrava pedrinhas no meio do caminho. E foi recolhendo-as. Tirando-as do caminho e levando consigo. Encheu os bolsos das calças e dos paletós. E continuava o caminho. Com o tempo encheu as mochilas e outros sacos com as pedrinhas que recolhia. Encheu-se delas, só não colocou pedrinhas na boca, nas orelhas e no rabo. Foi carregando as pedrinhas e percorrendo seu caminho. Avançava lentamente, mas deixava pegadas cada vez mais profundas. Arrastava-se, mas sentia orgulho; virava o pescoço e para trás o caminho livre de pedrinhas.
Até que empacou, de repente, numa terça feira, assim, sem mais nem menos. Baixou para recolher uma pedrinha, e quando levantou, travou. Não tinha como dar mais um único passo. Travou de pé, ali no meio do caminho, como uma árvore que tivesse fincado raízes. Não avançou mais. Eram pedrinhas demais, toneladas. Aquele peso, pedrinhas infinitas… começou a comprimir, foi sendo amassado, esmagado. Foi derretendo feito essas geleiras da Groelândia por causa deste maldito aquecimento global. Mas derretia por dentro, internamente, do centro pra fora, o eixo foi cedendo, mais um pouco e despedaçava-se. Eram toneladas.
Um dia passou pelo caminho um velho mago. Ao ver o rapaz plantado carregando as infinitas pedrinhas do caminho, com gentileza e sutileza parou ao lado:
- Aceitarias um conselho, meu jovem fiel e persistente?
- Diga lá, meu ancião. Despeje sua sabedoria, honra-me com este ato.
- Carregas peso demais, mas isso já sabes. Limpaste o caminho, deixaste tuas marcas, carregaste meio mundo nos ombros, e orgulha-te disso, bem vejo.
Não há que explicar nem justificar. Não há que elucubrar, refletir, analisar. Tampouco adianta pesar. De nada nos vale chegar às verdades neste momento, às respostas. Se é honroso teu ato? Se há vaidade somente? Se estás louco ou salvando o mundo? Se carregas as pedrinhas pois machucou o dedo quando chutou a primeira ou se o faz porque buscava, de alma, virar tronco e raízes? Esqueçamos tudo isso, meu rapaz, pois, o que vejo não posso duvidar. São meus olhos que me confirmam, logo é esse o único fato. O que vejo eu, meu jovem?
- Um homem carregando pedrinhas demais, empacado, no meio do caminho. Algo a acrescentar, respeitável mago?
- Meu jovem astuto, tens razão, vejo efetivamente o que vens de descrever: Uma pedra no meio do caminho. Mas perceba, vejo também uma encruzilhada. Vejo um rapaz que precisa tirar as pedrinhas do caminho, mas que carrega tantas pedras que não pode mais percorrer este caminho. Perguntarás certamente qual é a solução, pego a esquerda ou a direita? Adianto que não tenho a resposta, e que travado como estás, não pegas nem uma nem outra. Mas posso talvez oferecer-te ajuda. Posso retirar-lhe dos ombros a última pedrinha que cataste. Aquela que foi a gota d’água, que impediu que continuastes o caminho e que botou-te aí feito poste. Verás que logo as raízes encolherão, o que derreteu se consolidará, vais desamassar jovem teimoso. Terás então a possibilidade de escolher, poderás continuar o caminho, pegar a direita, a esquerda, ir em frente, voltar para trás… Infinitas possibilidades terás, meu jovem, inclusive a de recolher mais uma pedrinha. Mas atenção, agora já sabes o peso que suportas. Uma pedrinha e empacas de novo, o eixo central não suporta.
O mago pegou a última pedrinha que o rapaz havia recolhido e atirou-a para frente, bem no meio do caminho. E foi-se.
Sabe-se lá o que fez o nosso colecionador de pedrinhas quando alguns minutos após conseguiu mover-se, deixando de ser tronco fincado, travado, pedra no meio do caminho.
Sabemos apenas aquilo que o rapaz aprendeu do mago, do caminho, das pedras: Há o caminho, no meio do caminho uma pedra. Sempre haverá pedrinhas. Podemos carregá-las, mas há um limite, e há que se aprender qual é o peso que o eixo central suporta, senão, a gente cede, dobra:
Gosto de imaginar que o rapaz também percebeu, que lá para frente, no caminho, cheio de pedrinhas, tem o fim do caminho. Mas ai é outra fabula, n’est ce pas?
É pouco? É muito? É tudo?