Música a calhar – Bicho de Sete Cabeças – versão Zeca Baleiro
17 Dez
I do not ask who you are…that is not important to me,
You can do nothing and be nothing but what I will infold you.
Walt Whitman
João Bosco
16 DezJoão Bosco. Esse cara é muito bom. Letra, voz, violão, arranjos, humor, improvisos, feeling – tudo muito foda. Tem um show dele que passa no canal Brasil que chama-se Obrigado Gente! Vale a pena ver. Tem várias participações. Djavan, Yamandú e outros. Abaixo, duas!
Eleanor Rigby/Fita Amarela/Trem Bala
A nível de…
Leaves of Grass
16 DezSemana passada, ganhei um livro de presente. Eu ganhei um presente comprado na hora e entregue em mãos num bar. Inesperado. Fazia um tempão que não ganhava um presente, fiquei feliz. O livro é o Folhas de Relva do Walt Whitman. O legal é que é uma edição bilíngüe feita em comemoração aos 150 anos da primeira edição do livro – é a tradução integral deste clássico. Alguns trechos….
I celebrate myself,
And what I assume you shall assume,
For every atom belonging to me as good belongs to you.
——————————————————————
All forces have been steadily employed to complete and delight me,
Now I stand on this pot with my soul.
——————————————————————
I believe in the flesh and the appetites,
Seeing hearing and feeling are miracles, and each part and tag of me is a miracle.
——————————————————————
Loafe with me on the grass… loose the stop from your throat,
Not words, not music or rhyme I want…not custom or lecture, not even the best,
Only the lull I like, the hum of your valved voice.
festa dia 23 – Campos9
12 DezOntem fiz o primeiro flyer de divulgação da festa que faço com meus amigos todo final de ano, há 9 anos. Taí!

rock it
11 DezEstou escutando aqui os álbuns recentes do AC/DC – Black Ice e do Guns N’ Roses – Chinese Democracy. O Black Ice é bem classe (não tanto quanto Back in Black ou Highway to Hell, claro). Já o Chinese Democracy, por enquanto não convenceu. De qualquer forma, é legal ver os caras na ativa. Show must go on! Abaixo 2 videoclipes clássicos!
Mais do Fabrício Carpinejar
11 DezEstou curtindo muito os textos e poesias deste cara, compartilho aqui com meus poucos e fiéis leitores.
As sombras da vinha
Quero estar rente a tudo,
roçando as vísceras,
cheirando a acúmulos.
Quero apresentar-me
com a cara e as mãos
de quem acabou de fuçar
as hortas. Em desalinho,
em farpas, em suor misturado
aos sucos, com manchas
de frutas que não alvejam.
Os cabelos emaranhados
de folhas e presságios.
As sardas da longa
exposição à inclemência.
Quero ser, da poesia,
o bicho mais bravio.
————————–
De tanto ler
o que não estava escrito,
o livro pode sair
de si mesmo.
————————–
Nos encontramos lá em cima
Eu me aguardo mais do que tenho paciência.
Nem sempre eu me encontro, tem dias que vou ao trabalho sem me levar, tem dias que sou uma lembrança do que precisava ser.
Há quem acredite que está inteiro sempre?
Não, não é possível. Nunca seremos inteiros sozinhos. Eu me aproximo da inteireza na praia. Uma praia do entardecer, quando o vento arrasta suas redes e os barcos se entendem com as estrelas. Uma hora em que o mundo parece que está voltando para casa e não decidindo nada.
Nessa hora imprecisa entre a tarde e a noite, gosto de ser insultado pelas gaivotas. Elas se aproximam e se afastam. Arrulham com a violência das crianças jogando futebol, brincam com a bola imaginária de minhas mãos, zombam de minha âncora para voar mais alto.
Eu sempre fui virgem para cada mulher. Porque não sou completo. Sou o adolescente que se deslumbra para conhecer. Que abre o sutiã para logo aproximar o peito. Como se o meu peito fosse proteger os seios. Como se meu peito fosse uma camisa envergonhada. O adolescente que arrisca pela intuição, por ouvir os ouvidos. Que ainda não encontrou algo mais excitante na vida do que tirar a calcinha. E olha para os pés dela para que a ânsia complete o que faltou enxergar. Que tem cuidado para entrar, um cuidado viril, um cuidado autêntico, um cuidado permanente que não perderá quando estiver distante.
A segurança me tornou insensível. Não dependo dela. Não sou um ator para ler o texto antes de interpretar. Interpreto a minha própria ignorância.
Até sei que isso não conta pontos na sedução e me fará passar uma imagem de inexperiente. Sou cada vez mais inexperiente. Minha mulher que o diga.
Amar é inexperiência, é esperar que a minha mulher se espere. Posso me faltar, mas ela não. Não fazer nada que não tenha sido aquecido pelo sopro. Essa praia que é a cintura: as águas mexendo as pedras sem ninguém ver, deslocando o som, conchas correndo secretas.
É a inexperiência que me toca. A experiência da inexperiência. O que me agrada sinceramente é quem recebe o esquecimento e ainda assim não se esquece. Quem não retira o cumprimento atrás da porta. Mas o que se contenta com um abraço ou um deslizar mútuo dos dedos.
Não desejo impor meu ritmo. Toda a transa é a primeira. Os lábios se multiplicam no rosto. Há mais bocas do que duas bocas. Sombras de bocas. A respiração ajuda a espalhar o beijo. Uma excitação pela próxima palavra. O corpo é um ditado. Uma palavra por vez. Não ter idéia de qual seja a próxima palavra. Suspirar dentro do gemido. Não ter idéia de subir e descer, e descer e subir na própria indecisão. Cada olhar como a repetir: “Vem, eu a ajudo a subir”.
E só gritar, como as gaivotas, quando estiver no alto.
Revival
9 DezGravação tosca feita em 2003. Composição e violão – Daniel. Voz de gripado – Eu. Batera – Cari.
Casa de Praia
Claro
Vitor Araujo
9 DezO cara quebra. Vitor Araujo é de Recife, tem uns 18 anos e apavora no piano. Mistura música erudita e contemporânea da forma que bem entende. Lançou seu primeiro álbum este ano; TOC – Ao vivo no Teatro de Santa Isabel. Vi uma entrevista do Chico Pinheiro com ele e fui atrás do álbum. Abaixo uma versão dele da música Paranoid Android do Radiohead.
Blindness
9 Dez
Até que enfim vi o filme Blindness. Achei muito bom.
Antes de assistir, escutei gente divagando sobre o filme. Dizendo que o filme revela como é incrível a capacidade do ser humano de se adaptar a tudo. Eu discordo. Para mim, o filme mostra muito mais como é impressionante a capacidade do ser humano de tornar-se desumano e cruel quando a corda aperta, quando o bicho pega. É em situações de limite que descobrimos quão podres e egoístas algumas pessoas são e o inverso também. A adaptação sempre acontece. Somos capazes de nos adaptar a tudo, verdade. Isso não quer dizer que esta adaptação seja feita de uma forma ‘humana’, com caráter, princípios e respeito.
Síndrome de Heroes
8 Dez
Tem dias que dá vontade
De me tele-transportar
Como o Hiro Nakamura faz
Quando apenas com o piscar
Pode andar por todo canto
E pelo tempo viajar…
Tem dias que também quero
Não sentir nenhuma dor
Como a Claire Bennet faz
Quando toma uma facada
Ou qualquer outra porrada
Ela consegue regenerar…
Tem dias que me imagino
Passeando pelas nuvens
Como o Nathan Petrelli faz
Quando tira os pés do chão
E com um salto rumo ao céu
Ele consegue voar…
Tem dias que eu até tento
Ter o poder de escutar
Como o Matt Parkman faz
Quando ele se concentra
Pode ler os pensamentos
De quem não quer falar…
Mas tem dias que eu só quero
Não ter que me lembrar
Das histórias impossíveis
Que um dia eu quis sonhar
Pois a vida é bem mais louca
Do que possa imaginar…
indigo niño
8 Dezindigo niño
what a stranger behavior
qu’est-ce que tu fais?
com estes olhos vermelhos
indigo niño
who the hell are you?
où sont vos amis?
Por que não estão aqui?
indigo niño
it´s too late at night
il est temps de dormir
onde estão os seus pais?
indigo niño
you must close your eyes
essayer de revê
com um pouco de paz.
O assalto
8 DezPraia. Noite de sábado. Amigos reunidos em casa. Tranquilidade, cervejas, música, conversas boas. De repente, surgem gritando dentro da casa dois mascarados armados. Pânico, claro, mas ninguém se move. Arma na cabeça. Uma coronhada. Desce todo mundo para a sala de baixo. Carteiras, celulares, dinheiro, roupas, bolsas. 20 minutos de terror. As mulheres chorando. Um sentimento de impotência e fragilidade. Medo da violência, da morte. Que merda amigos. Vão-se os anéis, ficam os dedos.
al al 466
8 DezTragos
Fumaça vai
Não espero mais
Tratos
Fagulha cai
Não enxergo mais
Trajes
Falácia sai
Não consigo mais
Trevas
Fadiga ai
Não suporto mais.
8 Dez
Escuto frases que já escutei em contextos muito parecidos e fico pensando se são coincidências ou se são chavões mesmo. Frases que já não causam muito impacto para mim, mas continuam sendo agradáveis de ouvir.
Fabrício Carpinejar
8 DezJá que citei o blog do Saramago no post abaixo, cito também o blog do Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista. Meu irmão me indicou e gostei muito das coisas que li até agora. Abaixo, dois textos dele.
O desgoverno do riso
Teu riso não é o mesmo riso. Há tantos risos em ti, que ainda não descobri todos. O riso contido, encabulado, que costuma aparecer em restaurantes. O riso desaforado, malicioso, com a proximidade dos ouvidos. O riso choroso, que surge no meio da tristeza e te faz rir e chorar ao mesmo tempo, como uma pane elétrica. O riso materno, de orgulho distanciado, como que perguntando como aquela criança enorme saiu de teus olhos. O riso ao sair do banho, boiando no perfume, mostrando os dentes como seios. O riso fúnebre, do sarcasmo, quando não suportas mais uma conversa e empurra a cadeira e a respiração para trás com barulho. O riso sem graça nenhuma, falso, que aconteceu involuntário e não tinha fôlego para permanecer. O riso esparso, que escreve os olhos em letra minúscula. O riso do gozo, que se levanta com a ajuda dos braços da cama. O riso esticado para fotografia, de pálpebras cerradas. O riso da formalidade, meia boca, de quem não está ouvindo. O riso epilético, da brincadeira, onde as palavras são profecias. O riso de quem não é indiferente a nascer, cúmplice, amigável de sombras. O riso do cumprimento. O riso do aceno. O riso debaixo de um guarda-chuva, minguante, preocupado em não pisar em um rosto. O riso estranho, de não lembrar o nome com quem se está falando. O riso do perdão. O riso do castigo. O riso desigual, que puxa mais o lado esquerdo do que o direito, que entorta a boca como uma aspirina sorvida a seco. O riso que é soluço e demora alguns segundos para voltar. O riso contemplativo, com os lábios comprimidos de mímica e crepúsculo. O riso que é gargalhada, uma pedra sem chegar ao fundo. O riso afônico, como um filme rebobinando. O riso indiferente, que não faz cova, nem enterra o osso do riso. O riso macio, do sono, das pernas esticadas no lençol novo. O riso que é desgoverno da palavra. O riso que gosta e não elogia. O riso da adoração de algum canto. O riso de quem ama tudo e não se mexe. O riso de enganar as intenções da cólica. O riso tardio, que se dá conta bem depois do riso. O riso antecipado, nervoso, antes da hora. O riso da impaciência, apertado como um desejo. O riso da prova, da fugacidade deliciosa. O riso do provador quando a roupa ajuda a esquecer as medidas do corpo. O riso de sobra, de quem encontrou uma vaga para estacionar. O riso da fome, que fica aberto, em sentinela. O riso de quem retém o sopro de um verso. O riso sentado estando de pé. O riso teológico, que promete Deus em causas próprias. O riso que desaprendeu o volume da água. O riso do susto, justamente quando pensava bobagens. O riso que peguei emprestado como um livro e não devolvi e de vez em quando ele ri sozinho dentro de minha boca, sem saber ao certo qual foi dos teus risos.
Conte-me os finais dos filmes
Conte-me os finais dos filmes, eu não me importo. Eu esqueço os finais dos filmes. Nunca guardo o que acontece no enlace. O final do filme é o menos importante. Não entendo como embaralho os finais como se fossem começos. Minha memória não é fotográfica, ela corre a letra e não me entendo depois. O que eu fiz com os finais dos filmes? Os livros me influenciam e não me deixam concluir. Não posso concluir o que adivinho. Eu transformei os finais dos filmes em livros que não escrevi. Gosto que me digam o final antes de assistir o filme. Eu vou esquecer assim que assistir. Conte-me o final de minha vida, eu não me importo. Ciganas, fadas, bruxas não me apavoram. Não vai mudar o que farei. O final da vida não altera meu endereço. Não altera a fome que havia na vida. O ácido da boca. A hortelã da boca. O susto de estar errado. O acerto inesperado. Não vai alterar a ordem da rotina, a ordem da minha higiene: se tomo primeiro o pente, depois a navalha, depois a escova, depois o cortador de unhas. Não vai alterar minha dieta, minha receita médica, a cor de minha língua. Não vai alterar as sete quadras que atravesso para chegar ao banco, o modo de discordar da luz. Não vai alterar o cheiro da grama com a chuva. A impureza dos ouvidos. Não vai alterar a reposição da aguardente no bar. O suor das árvores. A manchete do jornal que não lerei. Conte-me o final do livro. Não vai alterar o desejo feito de começos. O começo do desejo no desejo. As tardes lentas do domingo. Os cabelos lentos da filha. Não vai alterar o modo como viro a página, o modo como troco de assunto. Não vai alterar a floresta reduzida a um ninho. O ninho reduzido a uma asa solteira. Não vai alterar a evaporação das uvas. O número de amigos. Não vai alterar o horário das missas, dos cinemas, do nascimento. O final do livro não vai alterar o autor e sua insuficiência. Não vai alterar o que não se enterra no final.
Blog do Saramago
8 DezO blog chama-se O caderno de Saramago .
O texto copiado abaixo eu extrai do blog. É sobre o livro Budapeste do Chico Buarque. Eu curti muito o livro, mas ouvi muitas críticas ruins de outras pessoas que leram.
Chico Buarque de Holanda
Outubro 21, 2008
Haverá universos paralelos? Perante as variadas “provas” apresentadas ao tribunal da opinião pública pelos autores que se dedicam à ficção científica, não é difícil acreditar que sim, ou, pelo menos, estar de acordo em conceder à temerária hipótese aquilo que não se nega a ninguém, isto é, o benefício da dúvida. Ora, supondo que realmente existam esses tais universos paralelos, será lógico e creio que inevitável ter de admitir igualmente a existência de literaturas paralelas, de escritores paralelos, de livros paralelos. Um espírito sarcástico não deixaria de recordar-nos que não se necessita ir tão longe para encontrar escritores paralelos, mais conhecidos por plagiários, os quais, no entanto, nunca chegam a ser plagiários de todo porque alguma coisa da lavra própria se sentem na obrigação de pôr na obra que assinarão com o seu nome. Plagiário absoluto foi aquele Pierre Menard que, no dizer de Borges, copiou o Quixote palavra por palavra, e mesmo assim o mesmo Borges nos advertiu que escrever o termo justiça no século XX não significa a mesma coisa (nem é a mesma justiça) que tê-la escrito no século XVII… Outro tipo de escritor paralelo (também chamado nègre ou, mais modernamente, ghost) é aquele que escreve para que outros gozem a suposta ou autêntica glória de ver o seu nome escrito na capa de um livro. Disto trata, aparentemente, o romance – Budapeste – de Chico Buarque de Holanda, e se digo “aparentemente” é porque o escritor “fantasma” cujas grotescas aventuras vamos acompanhando divertidos, se bem que ao mesmo tempo apiedados, é tão-somente a causa inconsciente de um processo de repetições sucessivas que, se não chegam a ser de universos nem de literaturas, sem dúvida o serão, inquietantemente, de autores e de livros. O mais desassosegador, porém, é a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo, cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provocação “ontológica”: que é, afinal, a realidade? o que e quem sou eu, afinal, nisso que me ensinaram a chamar realidade? Um livro existe, deixará de existir, existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu, também desapareceram ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.
José Saramago
poesia falada
6 DezNão tenho certeza, mas a impressão de que o primeiro poema que escutei ou li foi ‘No meio do caminho’ do Drummond. Deve ter sido na escola e me marcou bastante. Acho que porque tem essa levada meio mantra.
É muito diferente ler uma poesia de escutar uma poesia. A poesia recitada ganha outra vida na interpretação de quem está lendo. Quando quem lê é o próprio autor, melhor ainda. Eu quando estou lendo poesias gosto de ler em voz alta. Não só pelo ritmo e entonação – porque o ritmo e entonação existem também quando lemos de boca fechada. Estão dentro de nós. Acho que é pela ressonância das palavras, não sei direito.
Que seja, venho escutando e deliciando-me com poesias do Drummond e Fernando Pessoa recitadas pelo Paulo Autran, uma interpretação muito foda. E também com crônicas e contos da Clarice Lispector lidos pela Aracy Balabanian. Descobri recentemente e estou curtindo muito.
Algumas aí!
No meio do caminho – Carlos Drummond de Andrade
Poema em linha reta – Fernando Pessoa
Traduzir-se
5 DezUma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
O Milagre das Folhas
5 DezHá alguns dias, estava no bar com amigos e enquanto conversava com uma grande amiga minha, ela me disse que queria ler uma citação que tinha anotado em sua agenda. Enquanto ela procurava a anotação na pequena agenda, reparei que ali, prensada entre algumas páginas, tinham algumas folhas secas. Perguntei o que era aquilo. Ela disse que gostava de folhas. Lembrei na hora de uma crônica da Clarice Lispector, O Milagre das Folhas e falei para ela. Achei esse texto recitado pela Aracy Balabanian na net. Taí.
O Milagre das Folhas
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Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que são de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzí¬-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como
o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.
Clarice Lispector
Bukowski
4 Dezall the women
all their kisses the
different ways they love and
talk and need.
their ears they all have
ears and
throats and dresses
and shoes and
automobiles and ex-
husbands.
mostly
the women are very
warm they remind me of
buttered toast with the butter
melted
in.
there is a look in the
eye: they have been
taken they have been
fooled. I don’t quite know what to
do for
them.
I am
a fair cook a good
listener
but I never learned to
dance — I was busy
then with larger things.
but I’ve enjoyed their different
beds
smoking cigarettes
staring at the
ceilings. I was neither vicious nor
unfair. only
a student.
I know they all have these
feet and barefoot they go across the floor as
I watch their bashful buttocks in the
dark. I know that they like me, some even
love me
but I love very
few.
some give me orange and vitamin pills;
others talk very quietly of
childhood and fathers and
landscapes; some are almost
crazy but none of them are without
meaning; some love
well, others not
so; the best at sex are not always the
best in other
ways; each has limits as I have
limits and we learn
each other
quickly.
all the women all the
women all the
bedrooms
the rugs the
photos the
curtains, it’s
something like a church only
at times there’s
laughter.
those ears those
arms those
elbows those eyes
looking, the fondness and
the wanting I have been
held have been
held.
Pelas ruas que andei
4 DezNão sei se foi porque ontem conversei em espanhol ou porque sonhei com pessoas que conheci na Europa, sei que me bateu uma nostalgia daquela época. Busquei uns cds com fotos de lá e fiquei revendo. Se tudo der certo ano que vem vou pra lá de novo. Dar umas voltas pelo velho mundo. Tem uma porrada de lugares que ainda quero conhecer. Budapeste, Istambul, a região da Capadócia, uns cantos em Portugal. É só correr atrás que rola. Pensamento positivo e ânimo. 2009 promete!

4 Dez
Sobre momentos únicos que não se repetem, mas nunca deixarão de existir na lembrança de quem os viveu. Nostalgia boa. 25 segundos. meu apartamento da calle Napoles em Barcelona, dia 23 de Maio de 2004. Pré balada, violão, cerveja Xibeca e amigos.
3 Dez
versão chico
versão ana carolina
tá bom, eu sei que é mais uma música triste, vai reclamar com o chico..hehe… para compensar a de baixo é bem alegre.
2 Dez
A velha lançou os búzios sobre um velho manto. Eles rolaram lentamente. Durou o tempo de uma tensa e profunda respirada, que preencheu meus pulmões com a fumaça daquele incenso quase acabado. Imóveis, os búzios apontaram para o norte. A velha então, olhou-me nos olhos desconfiada. Fez uma pausa, fitando-me com curiosidade. Desviou o olhar, recolheu os búzios de cima do manto e ameaçou sorrir.
- Há solidão em seu olhar triste.
Permaneci calado.
- Como você já deve imaginar, não foram os búzios que me disseram isto. Seu destino é imprevisível, rapaz. Nem eu, nem os búzios ou qualquer outro poder de vidência poderá revelá-lo. Sua sorte está lançada e seu rumo, do acaso é cúmplice.
Ainda calado e tentando manter uma fisionomia fria e imparcial, estendi a mão para entregar-lhe o dinheiro da consulta. Ela pegou o dinheiro e como quem está com a pulga atrás da orelha, pediu:
- Rapaz, deixe-me ver suas mãos?!
Estendi as mãos com as palmas para cima. Ela então, com seus dedos, tocou a ponta dos meus dedos, alisando a área onde está desenhada a impressão digital. Neste momento, não consegui conter a expressão de surpresa em minha face e deixei escapar uma palavra:
- Deja-vu!
Samba da vela + Ó
2 Dez
Ontem fui apresentado ao Samba da Vela. À primeira vista é meio bizarro, parece um culto religioso. Uma roda de sambistas no meio de um salão bem iluminado (mais parece uma tulha) e um monte de gente sentada ao redor com caderninhos na mão cantando os sambas (eles distribuem as letras antes de começar). Não vende cerveja ali. Eu até que estava tranqüilo de beber, mas ela disse que tínhamos que comemorar nosso reencontro, eu achei justíssimo. Busquei no boteco ao lado e trouxe os copos (tem que ser de plástico, senão não entra). Passados 15 minutos já estávamos cantando e adorando tudo aquilo. Um lugar diferente com samba de qualidade e pessoas felizes. Vale chegar cedo, tipo umas 9 da noite para conseguir sentar e pegar os sambas desde o começo. De lá para o Ó do Borogodó. Nas segundas-feiras antigamente no Ó tocava uma banda de chorinho, mas há algumas semanas o chorinho passou a ser às quintas-feiras e nas segundas tem uma banda de samba bem animada. Dancei como não dançava há séculos. O Ó estava bem lotado, mas sempre há espaço para dançar. A noite seguiu até deixar de ser noite. Acordei feliz, com o corpo meio dolorido e uma sensação de paz merecida.
algumas dos grandes
1 DezAi! Pobre coração! Assim vazio
E frio
Sem guardar a lembrança de um amor!
Nada em teus seio os dias hão deixado!…
É fado?
Nem relíquias de um sonho encantador?
Não, frio coração! É que na terra
Ninguém te abriu… Nada teu seio encerra!
O vácuo apenas queres tu conter!
Não te faltam suspiros delirantes,
nem lágrimas de afeto verdadeiro…
-É que nem mesmo o oceano inteiro
Poderia te encher!…
(Castro Alves)
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimentos demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
(Ricardo Reis)
Pois que a beber me deste em taça transbordante,
e a fronte no teu colo eu tenho reclinado,
e respirei da tu’alma o hábito inebriante,
- Misterioso perfume à sombra derramado;
visto que te escutei tanto segredo, tanto!
Que vem do coração, dos íntimos refolhos,
e tive o teu sorriso e enxuguei o teu pranto,
- A boca em minha boca e os olhos nos meus olhos;
pois que um raio senti do teu astro, querida,
dissipar-me da fronte as densas brumas frias,
desde que vi cair na onda da minha vida
a pétala de rosa arrancada aos teus dias…
Possa agora dizer ao tempo em seus rigores:
- Não envelheço, não! podeis correr, sem calma,
levando na torrente as vossas murchas flores;
ninguém há de colher a flor que eu tenha n’alma!
Podeis com a asa bater, tentando, sem efeito,
a taça derramar em que me dessedento:
Do que cinzas em vós há mais fogo em meu peito;
e, em mim, há mais amor que em vós esquecimento!
(Victor Hugo)
O rio V2
1 Dez
Sou a tempestade barulhenta
E sou o Sol que ilumina o dia e esquenta o corpo.
Sou a porrada da onda, mas também a calmaria da lagoa.
E meu rio flui.
Sou o grito de angústia do adolescente,
E o afago do velho sábio em palavras sussurradas e confortantes.
Sou o doce de lágrimas salgadas,
Porém e antes de tudo, sinceras.
E meu rio corre.
Sou a mão que aperta e acaricia.
A mão que excita por peso e leveza.
Sou o atrevido afobado que acua,
No entanto veja bem, também acolhe, acode e cuida.
E meu rio devasta.
Sou o inconformado, inseguro e impertinente,
Pero soy torre, porto e aço.
Sou o enxadrista enlouquecido
E também o jogador de cartas que sabe blefar e ganhar.
E o meu rio ultrapassa.
Sou a água límpida e refrescante
E sou a cachaça entorpecente.
Sou amado e, principalmente, sou amante.
E meu rio respira.
Sou sereno e ciente, entretanto sou explosão e dentes.
Sou lobo e uivo, mas posso ser sabiá e cantar.
Sou o riso do bom palhaço e a mira do atirador frio.
E o meu rio supera.
Sou o despertar da manhã e o melhor amigo da Lua.
Sou o olhar do Pai e o beijo do sedutor.
Sou poeta e peixe, eu quero o mar.
E meu rio tem rumo.
Sou silêncio e versos mil.
Sou você e eu, mas acima de tudo,
Sou rio e meu rio voa.




