The Beast and The Beauty

04/07/2009 by michelccc

Emplacava o quarto dia sem comer. Não era a primeira vez, mas estava agora mais velho, e esses jejuns mais longos começavam a incomodar. Sua última refeição não tinha sido um banquete. Os parcos restos de uma jovem gazela, que tinham ainda lhe custado um belo entalhe na pata posterior direita; os caninos de uma hiena, eram quatro ou cinco, mais uma vez teve que ser na porrada. As coisas não estavam vindo fácil nos últimos tempos.

Não tinha ainda as alucinações que havia experimentado algumas semanas ou meses atrás, quando por conta de um embate virilmente acirrado com um rival perdera um canino inferior e ganhara uma infecção de rinoceronte. Naquela ocasião sofreu de febre por seis dias e por seis dias não comeu. Até que ao final do sexto dia, com a ajuda do crepúsculo, a febre cedeu, arrefeceu, a alucinação passou, fincou as quatro patas no solo seco da savana, levantou a cabeça, chacoalhou a juba, rugiu e, em menos de meia hora havia engolido um filhote de gnu inteiro.

Agora ainda não alucinava, mas já embaralhava os odores e as idéias. Passou o dia perambulando em vez de descansar e esperar o momento propício. Fez ida e volta beirando o rio durante horas na esperança de cruzar uma manada, ainda que soubesse que não viria manada alguma antes do entardecer. Não havia desespero, simplesmente uma certa impaciência, misturada com um jogo estranho, dele com ele mesmo, de testar a resistência da corda, de empurrar um pouco a situação, alargando as bordas dos limites. Gastou a energia que não podia, subiu e desceu pequenos morros e rochedos, apreciou suas patas enquanto esculpia sulcos em troncos de Baobás. Quantas presas não tinha dilacerado com apenas um bom e preciso golpe destas potentes patas? Quantas fêmeas não havia deitado, dobrado, com a força e destreza destas patas? Gastou algum tempo observando pequenos animais, pássaros, insetos, patos selvagens, serpentes… Não entendia muito aquilo tudo, seres inúteis para ele, não eram presas, nem concorrentes. Tinham lá seu charme, pensou. Aparentemente tinham eles também uma rotina, vontades, sentimentos, instintos. Reparou que também caçavam, alguns, outros fugiam, outros comiam plantas. Haveria maneira de se comunicar com eles? Todos fugiam, à simples aproximação das patas, as passadas, e os pequenos animais se afastavam.

Enfim chegou o entardecer e com ele os antílopes. Havia ainda suficiente sobriedade. Escolheu a moita e sumiu feito soldado camuflado. Agora era a espera, a partida de xadrez, a paciência a serviço do deleite – ou da sobrevivência? Acendeu todos os sentidos, ligou tudo no máximo. Escutava a algazarra contida do desalterar em bando. Buscava distinguir os grunhidos dos filhotes no meio da manada. Içava ainda mais as orelhas a fim de captar o chamado de uma mãe ao filhote que ameaçava se desgarrar… fungava até o âmago buscando o resquício de um bichano mais frágil, o odor do medo, da fragilidade, do sangue… Com o olhar de lanternas percorria o bando de ponta à ponta no aguardo de um mínimo deslize, aquele que mancasse um pouco…

Estranhamente ficou inerte. Sentiu como se algo o abafasse, qual um peso intenso nas costas. Manteve o ventre rente à terra, e não se moveu. Preocupou-se. Não iria conseguir caçar? O quê estava acontecendo? Que paralisia… talvez com alguma ajuda? Nenhuma ajuda? Onde estavam os crocodilos, os leopardos, as malditas hienas… Mas teria forças para brigar? Para arrancar do mundo a sua parte? Os sentidos foram recolhendo-se, foram perdendo a tensão. E adormeceu. Profundamente.

Despertou somente horas e horas depois, na noite do dia seguinte. Aí tudo já era delírio. Os sons, os odores, o frio – nunca tinha sentido frio – tudo estranho e diferente, misturando-se, confundindo-se. Tinha ao menos que beber, o rio ali do lado, as patas respondiam com dificuldade. Cambaleou até a margem, sorveu o que podia, desajeitado, molhando a juba toda… Um rebuliço de crocodilos. Teve vontade de enchê-los de patadas, arrebentar com aqueles répteis filhos da puta, bichos burros e sem classe, um dia comerei os seus filhotes… nojentos!

Vagou sem rumo. Na primeira espiada do sol da manhã sentiu um odor diferente. O vento trazia, era bicho frágil, não conhecia aquele cheiro, era doce e leitoso, vinha junto o cheiro de homem, vinha do noroeste, deviam estar a quanto? Umas 2 milhas no máximo… e foi.

Quando pôde avistá-los o odor já era massacrante. Voltou. Voltou com tudo. A fome. Puta que o pariu que fome, ficou até com tesão. Despertou, despertou completamente e vestiu-se de sua fortaleza; O Leão rugia por dentro enquanto o grupo de ovelhas atravessava sua planície. A proteção dos pastores, armados até os dentes. Leão não podia mais, rangia os dentes, andava de um lado para o outro, cavava buracos enormes com suas bolachudas patas. A tensão de leão do Leão transbordava, aumentada pelo calor e pelos vários dias de fome. Leão tremia, mas não de um tremor de medo, nem um tremor saudável de excitação e ansiedade. Tremia de fúria incontida. Babava, suava. Era leão e não podia controlar seus mais profundos instintos.
Leão olhou fixamente para o rebanho que encontrava-se a uns 80 metros. Retesou os músculos do corpo inteiro, e descansou sua alma. Partiu radiante, a juba balançando ao vento, acompanhando o movimento dos saltos. A velocidade controlada, as passadas seguras, potentes. Cena grandiosa, de rara beleza. O estrago não contava naquele momento. Nem mesmo a fome. Tudo era ato. O Leão era ato… estupendo. Tudo do Leão, tudo de leão, resumido em alguns segundos de beleza. Avançando, agora livre, guiado pelo cheiro, pelo som que o vento trazia, pelo costume, pelo desejo, pelo instinto, pela sua própria razão de ser. Não importavam os tiros das carabinas em sua direção, sentia apenas o odor do terror que as ovelhas exalavam, e como não podia deixar de ser, o néctar inebriante do gosto do sangue. Leão não sabe, mas foi abatido, feliz, leão, integralmente Leão.

Há uma outra versão que vez em quando pode ser escutada na região. Esta conta que os pastores não tinham carabinas coisa nenhuma. Velhos cajados e olhe lá. Leão teria dilacerado, literalmente partido ao meio 3 homens, dos quais provou a carne mas cuspiu pois sentiu nojo. Depois, em instantes, teria devorado 27 ovelhas, sob o olhar aterrorizado de um dos pastores que havia sido poupado e das outras 73 ovelhas que completavam o rebanho. Nesta versão, após o banquete, Leão teria dormido num montinho de relva de barriga para cima ao sol escaldante, saciado, fatigado, despreocupado… nem as moscas ousavam incomodar seu sono… e que o sono trouxe seus sonhos de Leão.

Fiquemos nós com a primeira versão, que me parece menos cruel e sanguinolenta. Poupemos nossos pastores e pobres ovelhas. Além disso, este leão-maluco parece um bocado um conhecido nosso, aquele tal de lobo-mau, comedor de vovozinhas e porquinhos fofinhos. Não é mesmo???

Daniel Carasso

Um pintor

04/07/2009 by michelccc

Um pintor decorador, mas que não trabalhava mais porque começou a beber. E como a maioria das pessoas tristes e sensíveis, que começam a beber, virou alcóolatra, e ficou mais triste. Mas era também pintor, além de pintor decorador. E pintava bonito, pintava sensível. Não que tivesse grande técnica, nem que fosse um gênio autodidata, mas pintava bonito, pintava sensível.
Como as pessoas que bebem era só. Vivia só. Como as pessoas que bebem tinha dezenas de amigos, na grande maioria amigos noturnos, amigos bêbados. Como as pessoas que bebem precisava de amigos, mas na verdade, não tinha amigos. Buscava desesperadamente o contato, buscava afeição e carinho. Queria mais do que tudo no mundo ser ouvido, ser entendido, cuidado, mas sabia bem que ninguém o entendia, em parte porque falava enrolado, misturava as idéias e os assuntos, em parte porque os que o ouviam também eram sozinhos e também queriam desesperadamente ser entendidos.
Era chato como as pessoas que bebem, e muito inconveniente. Era repetitivo e não tinha limites. Era feio como as pessoas que bebem, ainda que guardasse um mínimo de higiene e de cuidado com suas roupas e seu visual, o que o tornava ainda mais patético.
E tinha sido abandonado pela mulher há alguns anos, como as pessoas que bebem. E via cada vez menos os filhos, que estavam crescidos, e que tinham pena do pai, mas que também tinham vergonha do pai, e que também tinham uma vida própria, e que também tinham angústias e momentos obscuros e procuras desesperadas, como as pessoas.
E morava num apartamento pequeno, que dividia ora com um amigo, ora com outro. E não conseguia pagar o aluguel como as pessoas que bebem, apesar do seguro desemprego. E dormia muitas vezes fora de casa e às vezes na rua. E às vezes acordava machucado, escoriado, esfolado. E perdia moedas e documentos, como as pessoas que bebem.
E tinha os olhos sedentos quando via mulheres. E tinha o dom de falar delas como se fizesse poesia e falasse de anjos. E não tinha mais ereções e não dava mais beijo de língua.
E tinha os dedos amarelos e as unhas pretas, e tinha dores de estômago e de cabeça intermináveis. E tinha os dentes feios e cada vez mais escassos, e tinha hemorróidas e diabetes. E tinha o coração inchado e o fígado enferrujado. E tinha um projeto de câncer que daria um jeito em toda a bagunça, em segredo, sorrateiramente.
E tinha lembranças lindas que não queria lembrar.
E tinha telas lindas de mulheres redondas nuas ou seminuas, e tinha telas lindas de maçãs ou laranjas ao lado de um vaso, e tinha telas lindas de um senhor calvo e muito bem vestido, e tinha telas lindas de uma paisagem da região de Sartre.
Era um pintor decorador, mas que também era um pintor, simplesmente pintor, e pintava bonito e pintava sensível, e tinha telas lindas empilhadas num canto do quarto, entorpecidas pelo cheiro de cachaça.

Daniel Carasso

Lá em cima os Urubus

04/07/2009 by michelccc


Do dia que eu sentei ali, na toca do pé do prédio na rua São Bento, não levantei mais. Grudei igual que piche, que super-bondi que cola de tudo.
De sol e de vento eu ficava ali, sentado. De a chuva molhosa grudou raiz e eu a ver passar. De tudo passava, de muito joelho e sapato também. Que eu gostava mais que passava é saia; e as perna infinita, pontando pro céu. Ou então que nem raio, furando no chão. Passava salto, bicudo, de agulha; passava tropeço, passava uns arrasto de sandalia véia. Às vezes calava e não passava nada, só luz de lanterna e barata zureta.
Se eu não levantava é porque não precisava. Chegava de tudo sem nenhum pedir. Vinha uns gravatão mais bonito que cobra, que chegava perto mas ficava longe, e saía moeda, vez em quando nota. O Gordo pegava, dançava, sumia. E voltava. Voltava vermelho, risando que só, qual que maritaca, parecendo o sol. E era um anjo meu, já me dava o leite de matar minha sede, e sentava ao lado, sem fazer frescura. Me contava os causo que nós dois se ria, soviava as moça que sempre xingava e depois roncava pra chamar meu sono.

Lá pra cima era só janela. Mais que mil que eu nem contava, acendida de dia, apagada de noite. E eu imaginando o que escondia dentro. Que um dia me disseram que ali matutava só homi aprumado; os divogado, e também banqueiro.

Pra noite fria tinha os foguinzinho de lata, de cheirinho bom. Que chamava o bando, que se aconchegava, tipo assim de roda, pra girar garrafa; mão na mão, pra todas as bocas.

Lá pra fim de ano que é de Deus menino tinha as luz de festa, brilhantando à noite, até de toda as cores. Tinha mais comércio, formigando a rua. Que eu nada entendia dessas venda toda, mas que me gostava. “Tem cinto de couro! Tem pulseira, colar, quase de ouro! Tem os brinquedinho, mexendo sozinho, rodante, falante; três pagando dois.

Té que um dia veio uns homi grande, de bigode baboso, feito cão com raiva.

Só não rueram minha alma, que essa escapuliu pra cima feito rojão. Subiu subindo levezinha, sem dar conta lá de baixo, que se apequinava tudo. Foi dobrando os urubus, soltinha, ventosa. Foi mais alto que os prédios da São Bento

E só se quietou quando avistou o Gordo. Assentadão que tava, igual de sempre, o barrigão peludo, seis dedo vez de dez, o bonezinho do Parmeiras, se apagando. E riando, riando. Riando que não respirava. Nunca mais arrespirou.

Daniel Carasso

2a cine-feira

23/06/2009 by michelccc

Estamira de Marcos Prado

estamira

Le premier jour du reste de ta vie de Rémi Bezançon

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17/06/2009 by michelccc

“…The female that loves unrequited sleeps,
And the male that loves unrequited sleeps;
The head of the moneymaker that plotted all day sleeps,
And the enraged and treacherous dispositions sleep.

I stand with drooping eyes but the worstsuffering and restless,
I pass my hands soothingly to and fro a few inches from them;
The restless sink in their beds…they fitfully sleep.

The earth recedes from me into the night,
I saw that it was beautiful… and I see that what is not the earth is beautiful.

I go from bedside to bedside… I sleep close with the other sleepers, each in turn;
I dream in my dream all the dreams of the other dreamers,
And I become the other dreamers.

I am a dance… Play up there! the fit is whirling me fast…”


Trecho de Folhas de Relva – Walt Whitman

poesia web 2.0.

17/06/2009 by michelccc

SEO o mundo um dia parar de girar
E com o click numa tag a gente conseguir voar
Por que bandas largas iremos navegar?
Será que irão nos cobrar? Por CPC, por CPM ou por CPA?
Em que landing page iremos acabar?

SEM um link em evidência, nesta busca orgânica
Quem irá nos patrocinar?
E se os posts do meu blog ninguém comentar?
A Blogosfera inteira de mim irá caçoar…
Em nenhum bookmark eu irei estar
E o meu CGU ninguém vai notar…

Mas e se um dia um RSS me alimentar?
E em um Mush-Up de idéias eu conseguir viralizar
Uma porção de conteúdo eu irei proporcionar
Tudo Open Source pra todos que quiserem usar

Imaginem, até na Wiki eu vou estar
Num Orkut ou Facebook qualquer irão me elogiar
O meu Twitter terá mais seguidores que Alá
E minha cauda longa, orgulhoso, poderei abanar!

17/06/2009 by michelccc

lobo

Caminho pela noite observando tudo que uma visão limitada permite ver. O faro deste lobo solitário é aguçado, mas fragrâncias desconhecidas confundem o aroma que brota das margaridas com o cheiro dos crisântemos vermelhos. Este Eu, lobo solitário, segue no escuro tateando formas de prazer que me iludem. A Lua já está escancarada, parece nervosa mostrando toda sua ira, refletindo tanta luz. Ela eu não temo, sempre foi companheira da minha solidão e dos meus sonhos, carregou e protegeu-me por léguas sem nunca se queixar ou reclamar do meu silêncio. Talvez leia minha mente, siga meus passos e pensamentos, talvez goste de mim…

+ algumas de Ilha

17/06/2009 by michelccc

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fotos do cel – Ilha Bela

15/06/2009 by michelccc

Amigos especiais em pura sintonia em uma bela ilha. Carpe Diem.

10/06/2009 by michelccc

Para não se fazer ouvir, recolheu-se calmamente da sala. Calado, naquela situação, não saberia permanecer. Conhecia bem seu ímpeto voraz de argumentação. No entanto, estava começando a aprender a calar-se e aquele era o momento de colocar em prática tal aprendizado. Caminhou até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma cerveja e recostou seu corpo na pia. Permaneceu calado bebendo aquela lata por uns 2 minutos, voltou para a sala e desandou a falar.

10/06/2009 by michelccc

10/06/2009 by michelccc

Encontro umas coisas que escrevi jogadas por aí e por aqui. Me pergunto se eu sou mais aquele que escreveu ou o que agora lê. Talvez seja o que não encontrou o texto perdido. Talvez seja camaleão… ou leão.

Coisa de acender qualquer
Um fósforo num incenso
Esta vela numa mesa
O sol depois da noite
Um monte de coisa
Tipo jornal no chão
Gin no copo com gelo
Palavras gritadas que seja
Mesmo sorriso de mulher
Ou dentes de cão bom
Vide cheiro de haxixe
E as mãos do bebê

Choque elétrico
Som de respiração
Água salgada e doce
Uma vaca na estrada
A fresta da janela
Soco na cara
Jogo de memória
Chopp sem colarinho
Vento de moto
Unhas que coçam
Cisco no olho esquerdo
Mordida de namorada
Uma lágrima sincera
Seda de cigarro
Coração de galinha
Tosse de inverno
Bola de gude
Briga de irmão
Botão de elevador
Pele de cotovelo
Dança de índio
Shot de cachaça
Letras no teclado
Uma crase circunflexa
Janelas escancaradas
Corda de violão
Porta moedas preto
Terno engomado
Relógio de parede
Caixa de música
Paixão de adolescente
Cinzeiro lotado
Riqueza e pétalas
Um fone de ouvido
Alça de mala grande
Olhos azuis e amarelos
Criança no semáforo
Amor incondicional
Cobertor de lã
Pedra lisa e áspera
Cadeira de balanço
Frio de Paris
Beijos infinitos
Piano e harpa
Abajur apagado
Cabelos despenteados
Geladeira com cerveja
Envelope lacrado
Dedos do pé
Cílios e sobrancelhas
Nariz de palhaço
Toque de celular
Vazo sem flores
Vazo com flores
Fé do devoto
Menina apaixonada
Isqueiro sem gás
Gavetas lotadas de passado
Dois óculos escuros
Calcinha verde claro
Sombra da montanha
Pôr do sol na praia
Curvas na estrada
Letras de músicas
Engasgar bebendo água
Tapete persa
Um crucifixo no peito
Pêra madura
Uma porta fechada
Aeroporto de Amsterdã
Vestido longo cinza
A exatidão do instante.

Tom

06/06/2009 by michelccc

Meu sobrinho lindo!

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na praça

06/06/2009 by michelccc

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kind life

05/06/2009 by michelccc

Don’t you find life is unkind?
Sem dúvida, mas…
Yes, I know, all those roses around…
E as pedras no caminho
It’s a long way
Você sabe, depois daquela história…
You should forget
Ou não…
Have you seen her lately?
Quem?
Yes, I know
Está tudo tão confuso…
Have I told you I lost someone?
Eu também perdi alguma coisa… também achei outras…
I’ll take another one
Duas por favor!
We did some medical exams, apparently she can’t have a baby
A vida é um circo, ou um círculo, não sei
You’ve lost some hair man
Não vejo a hora de tirar férias… Já quase 2 anos…
Do you remember?
De bastante coisa, mas parece um trailer fora de ordem
Yes, I know
Joguei fora dois terços das fotos
I had this strange dream this weekend… I was deaf
Mas você se lembra de antes?
Of course, It was so special
Me conte um pouco, as coisas boas
Ok, let me close my eyes… Go on

Eu larguei minhas roupas na beira do rio e mergulhei. Fiquei alí dentro 6 horas. Estava um calor do Zimbábue. Lavou tudo, quase virei peixe.
Yes, I know, water is so great, do you remember that one who wanted to have gills?
E asas também, lembra? E?

Only the first kiss and I still have the scar in my back. She swallowed me. A Spanish girl.

Quatro da manhã, estava tocando “Dancing Queen” do ABBA, eu vi o rosto de Deus. Em Barcelona.

The first breath… she took 5 seconds to cry… infinity. Then I cleaned her cheeks and nose.  I can’t believe I was there

Simplesmente arrastei a arraia de volta pro mar. Era pesada e viscosa. Ela se foi sorrindo.

My father’s warm and sweet hands. Never been so secure.

Ubatuba e uma bebida com canela… esqueci o nome… eu tinha 18 anos… 18 anos, meu Deus.

Getting closer, slowly, patiently, like a silent battle, forgiving a few past mistakes, rediscovering, getting closer to the mirror… be able to hold and help my brother.

Indescritível… chegar até o fim… depois a composição pronta… Sua obra… feia, bonita, a música, seu filho.

Dreams, so many dreams I had…

Os cabelos até a cintura… e as botas de couro de bico fino

Books

Beijos

Sex

Seios

Road

Férias

To floss

Fumar

French kiss

Beijo na boca

Lull

Calma

Quando minha mulher pediu o terceiro temaki desacreditei. Mais um? Ela respondeu com os olhos, azuis, encorajadores, e a boca que era só água, a boca que era quase minha. Depois disse você está tão quieto… no que está pensando? Não sei… na vida acho. Às vezes me parece um pouco injusta, não sei… Alguém responde verdadeiramente à esta pergunta? Seria trabalhoso demais, não é mesmo… e também ninguém se escancara a ponto de abrir a portinhola do calabouço… o coração, as pernas, tudo bem, mas não a portinhola. Não ligou muito para minha resposta à sua pergunta e engatou perguntando se eu tinha notado o casal de gringos na mesa ao lado, ela achou que eram americanos… chutei que eram ingleses… nós dois falávamos mal e porcamente o inglês.

Daniel Carasso

um conto qq

05/06/2009 by michelccc

redgirl

Ela gostava de transar ouvindo Depeche Mode. Nunca me esquecerei disso. Acendia velas com cheiro por toda casa e deixava sempre uma jarra de água e dois copos no criado mudo ao lado da cama. Morava sozinha em um apartamento grande e super bem decorado no Itaim. Nas paredes havia fotos grandes enquadradas, todas em preto e branco. Eram fotos de paisagens e gente, tiradas nas diversas viagens que fez pelo mundo. Índia, China, Praga, África do Sul, entre outros lugares.

Eu tinha 20 anos naquela época e aprendi muito com aquela mulher. Ela era delicada, inteligente e experiente. Conhecia o mundo todo; manjava de arte, música, sexo e lances espirituais. Ficamos durante uns 6 meses. Na maioria das vezes na casa dela. Era muito sexo, mas não só sexo. Passávamos horas a fio deitados nus, conversando, fumando haxixe e tomando vinho. Ela dizia que não fumava maconha porque dava sono, mas haxixe a deixava numa boa. Eu adorava, naquela época eu ainda fumava e não tinha grana para comprar haxixe e nem sabia onde encontrar.

O que eu achava mais louco é que ela não tinha ciúme algum, nem eu. No máximo ela dizia algo como: Você não vai fazer o que a gente faz aqui com essas meninhas da faculdade, né? E eu dizia: Claro que não, minha linda.
Ela sabia que eu ficava com outras mulheres, já eu nunca quis saber se, durante aquele tempo, ela ficou com outros caras. Eu acho que não, pelo menos, prefiro pensar assim.

Geralmente a gente se encontrava às 5as feiras, mas às vezes também aos Domingos. A última vez que nos vimos foi em um Domingo. Cheguei na casa dela e ela estava com um vestido branco, bem fininho, devia ser seda. Lembro direitinho. Eu fui lá para me despedir. Estava indo passar um ano fora do país. Austrália, a onda perfeita e os saltos de canguru. Ela sabia dos meus planos e me dava a maior força. Na hora que contei que, enfim, tinha comprado a passagem e tudo mais, ela abriu um sorriso triste e disse: Vou te perder para o mundo bonitão, mas estou feliz por você!

A ultima transa foi diferente de todas as outras. Existia uma certa dor, uma saudade antecipada; uma suspeita, que depois se confirmou, de que aquela seria nossa última noite.

Karina, com K. Um cheiro de baunilha que no me olvidaré jamás.

Eu e Lu

04/06/2009 by michelccc

Minha sobrinha linda!

euelu

27/05/2009 by michelccc

For no one – The Beatles

20/05/2009 by michelccc

Sinal Fechado – Paulinho da Viola

O Colecionador – por Daniel Carasso

20/05/2009 by michelccc

O rapaz ia percorrendo seu caminho
E como não podia deixar de ser
No meio do caminho tinha uma pedra

Contrariado, chutou a pedrinha. Mas machucou o dedo
A pedrinha rolou e parou mais à frente, no meio do caminho
Entendeu, chutar não resolvia. Baixou-se, pegou a pedrinha e colocou-a no bolso. E foi

Continuou o caminho. Nas retas e nas curvas, pedrinhas. Invariavelmente encontrava pedrinhas no meio do caminho. E foi recolhendo-as. Tirando-as do caminho e levando consigo. Encheu os bolsos das calças e dos paletós. E continuava o caminho. Com o tempo encheu as mochilas e outros sacos com as pedrinhas que recolhia. Encheu-se delas, só não colocou pedrinhas na boca, nas orelhas e no rabo. Foi carregando as pedrinhas e percorrendo seu caminho. Avançava lentamente, mas deixava pegadas cada vez mais profundas. Arrastava-se, mas sentia orgulho; virava o pescoço e para trás o caminho livre de pedrinhas.

Até que empacou, de repente, numa terça feira, assim, sem mais nem menos. Baixou para recolher uma pedrinha, e quando levantou, travou. Não tinha como dar mais um único passo. Travou de pé, ali no meio do caminho, como uma árvore que tivesse fincado raízes. Não avançou mais. Eram pedrinhas demais, toneladas. Aquele peso, pedrinhas infinitas… começou a comprimir, foi sendo amassado, esmagado. Foi derretendo feito essas geleiras da Groelândia por causa deste maldito aquecimento global. Mas derretia por dentro, internamente, do centro pra fora, o eixo foi cedendo, mais um pouco e despedaçava-se. Eram toneladas.

Um dia passou pelo caminho um velho mago. Ao ver o rapaz plantado carregando as infinitas pedrinhas do caminho, com gentileza e sutileza parou ao lado:

- Aceitarias um conselho, meu jovem fiel e persistente?

- Diga lá, meu ancião. Despeje sua sabedoria, honra-me com este ato.

- Carregas peso demais, mas isso já sabes. Limpaste o caminho, deixaste tuas marcas, carregaste meio mundo nos ombros, e orgulha-te disso, bem vejo.
Não há que explicar nem justificar. Não há que elucubrar, refletir, analisar. Tampouco adianta pesar. De nada nos vale chegar às verdades neste momento, às respostas. Se é honroso teu ato? Se há vaidade somente? Se estás louco ou salvando o mundo? Se carregas as pedrinhas pois machucou o dedo quando chutou a primeira ou se o faz porque buscava, de alma, virar tronco e raízes? Esqueçamos tudo isso, meu rapaz, pois, o que vejo não posso duvidar. São meus olhos que me confirmam, logo é esse o único fato. O que vejo eu, meu jovem?

- Um homem carregando pedrinhas demais, empacado, no meio do caminho. Algo a acrescentar, respeitável mago?

- Meu jovem astuto, tens razão, vejo efetivamente o que vens de descrever: Uma pedra no meio do caminho. Mas perceba, vejo também uma encruzilhada. Vejo um rapaz que precisa tirar as pedrinhas do caminho, mas que carrega tantas pedras que não pode mais percorrer este caminho. Perguntarás certamente qual é a solução, pego a esquerda ou a direita? Adianto que não tenho a resposta, e que travado como estás, não pegas nem uma nem outra. Mas posso talvez oferecer-te ajuda. Posso retirar-lhe dos ombros a última pedrinha que cataste. Aquela que foi a gota d’água, que impediu que continuastes o caminho e que botou-te aí feito poste. Verás que logo as raízes encolherão, o que derreteu se consolidará, vais desamassar jovem teimoso. Terás então a possibilidade de escolher, poderás continuar o caminho, pegar a direita, a esquerda, ir em frente, voltar para trás… Infinitas possibilidades terás, meu jovem, inclusive a de recolher mais uma pedrinha. Mas atenção, agora já sabes o peso que suportas. Uma pedrinha e empacas de novo, o eixo central não suporta.

O mago pegou a última pedrinha que o rapaz havia recolhido e atirou-a para frente, bem no meio do caminho. E foi-se.

Sabe-se lá o que fez o nosso colecionador de pedrinhas quando alguns minutos após conseguiu mover-se, deixando de ser tronco fincado, travado, pedra no meio do caminho.

Sabemos apenas aquilo que o rapaz aprendeu do mago, do caminho, das pedras: Há o caminho, no meio do caminho uma pedra. Sempre haverá pedrinhas. Podemos carregá-las, mas há um limite, e há que se aprender qual é o peso que o eixo central suporta, senão, a gente cede, dobra:
Gosto de imaginar que o rapaz também percebeu, que lá para frente, no caminho, cheio de pedrinhas, tem o fim do caminho. Mas ai é outra fabula, n’est ce pas?

É pouco? É muito? É tudo?

Revolutionary Road

20/05/2009 by michelccc

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Acabei de assistir e achei o filme muito bom. Engraçado que só me dei conta agora, depois que terminou, que o casal protagonista é o mesmo do Titanic. Leonardo diCaprio e Kate Winslet. Não que tenha alguma coisa a ver com o Titanic, mas passados vários anos, lá estão eles protagonizando mais um filme emocionante. A história se passa na década de 50 em uma cidade americana. Na verdade, não importa. Prefiro apenas indicar e dizer que gostei do filme. Sinopses são (e devem ser) muito superficiais e, mesmo as bem escritas acabam limitando e influenciando a apuração, ou melhor, a degustação do expectador. Portanto, poupo os meus poucos leitores de um resumo primário e apenas deixo aqui a recomendação. Assistam!

mais um fado

15/05/2009 by michelccc

Preso entre o sono e o sonho – Ana Moura

O Desgoverno do Riso – Fabrício Carpinejar

14/05/2009 by michelccc

Teu riso não é o mesmo riso. Há tantos risos em ti, que ainda não descobri todos. O riso contido, encabulado, que costuma aparecer em restaurantes. O riso desaforado, malicioso, com a proximidade dos ouvidos. O riso choroso, que surge no meio da tristeza e te faz rir e chorar ao mesmo tempo, como uma pane elétrica. O riso materno, de orgulho distanciado, como que perguntando como aquela criança enorme saiu de teus olhos. O riso ao sair do banho, boiando no perfume, mostrando os dentes como seios. O riso fúnebre, do sarcasmo, quando não suportas mais uma conversa e empurra a cadeira e a respiração para trás com barulho. O riso sem graça nenhuma, falso, que aconteceu involuntário e não tinha fôlego para permanecer. O riso esparso, que escreve os olhos em letra minúscula. O riso do gozo, que se levanta com a ajuda dos braços da cama. O riso esticado para fotografia, de pálpebras cerradas. O riso da formalidade, meia boca, de quem não está ouvindo. O riso epilético, da brincadeira, onde as palavras são profecias. O riso de quem não é indiferente a nascer, cúmplice, amigável de sombras. O riso do cumprimento. O riso do aceno. O riso debaixo de um guarda-chuva, minguante, preocupado em não pisar em um rosto. O riso estranho, de não lembrar o nome com quem se está falando. O riso do perdão. O riso do castigo. O riso desigual, que puxa mais o lado esquerdo do que o direito, que entorta a boca como uma aspirina sorvida a seco. O riso que é soluço e demora alguns segundos para voltar. O riso contemplativo, com os lábios comprimidos de mímica e crepúsculo. O riso que é gargalhada, uma pedra sem chegar ao fundo. O riso afônico, como um filme rebobinando. O riso indiferente, que não faz cova, nem enterra o osso do riso. O riso macio, do sono, das pernas esticadas no lençol novo. O riso que é desgoverno da palavra. O riso que gosta e não elogia. O riso da adoração de algum canto. O riso de quem ama tudo e não se mexe. O riso de enganar as intenções da cólica. O riso tardio, que se dá conta bem depois do riso. O riso antecipado, nervoso, antes da hora. O riso da impaciência, apertado como um desejo. O riso da prova, da fugacidade deliciosa. O riso do provador quando a roupa ajuda a esquecer as medidas do corpo. O riso de sobra, de quem encontrou uma vaga para estacionar. O riso da fome, que fica aberto, em sentinela. O riso de quem retém o sopro de um verso. O riso sentado estando de pé. O riso teológico, que promete Deus em causas próprias. O riso que desaprendeu o volume da água. O riso do susto, justamente quando pensava bobagens. O riso que peguei emprestado como um livro e não devolvi e de vez em quando ele ri sozinho dentro de minha boca, sem saber ao certo qual foi dos teus risos.

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14/05/2009 by michelccc

“Eu me arrependo de dizer o que penso quando deveria dizer o que sinto.”

12/05/2009 by michelccc

Saltei
Mas o pára-quedas não abriu
O que abriu foi a minha cabeça
Pois espatifei
Se fosse só um tropeço
Evitaria tal queda
E quando se voa alto
Sabe-se o risco
Mas levantei
Já que gosto da altura
E novamente voei
E lá de cima saltei
E me espatifei
O pára-quedas reserva não abriu
O que abriu foi a minha cabeça
Pois despedacei
Só que aí eu levantei
E vendo meus destroços no chão
Eu sorri
Pois evolui
E já quero voar
E quem sabe cair.

do fundo do baú

11/05/2009 by michelccc

asdf

Peguei uma pilha gigantesca e empoeirada de cd’s e estou abrindo um a um. Nossa, são tantas coisas esquecidas, deixadas para trás. Tantas lembranças vindas à tona. Tanto passado. Fiquei pensando muito nisso agora. Nessa nostalgia, por vezes até um sentimento de perda, aquilo que não tem volta. E a vida é assim mesmo. Por isso, talvez eu sempre tenha sido muito ligado ao momento, ao presente, ao que se vive de fato, sem ilusões e demasiada expectativa. O acaso, o instante. Os rumos da vida são decididos em pequenas faíscas de presente. Decisões repentinas, oportunidades momentâneas. Apenas uma linha é traçada, faça o que fizer, sempre existirão variados caminhos a se seguir, mas apenas um será o seu. O que poderia ser nunca de fato será. Os fatos são os responsáveis pelo destino e nunca aquilo que deixou de acontecer, mesmo quando poderia ter acontecido. Confuso o que escrevi, mas é que fiquei confuso ao me deparar com tanto passado. No entanto, contente por ter feito minhas escolhas, certas ou não, e ser que eu sou. Emocionante rever o passado através de textos, fotos, trabalhos feitos e etc. Abaixo uma poesia boba que escrevi há muuuuito tempo e que encontrei em um destes cd’s.

Queria fazer teatro
Tatuar um peixe alado no braço
Queria arrumar meu carro
Parar de fumar tabaco

Queria amar pra valer
E adotar um dog alemão
Queria uma casa na praia
E aprender a tocar gaita

Queria ter um filho
Cantar alto o hino
Acreditar em signo
Saber degustar um vinho

Queria sentir mais sabor
Não pensar só em labor
Queria cheirar uma flor
Sentir na praia, calor

Queria viajar para longe
Mudar um pouco do mundo
Queria saber meu destino
Fumar às vezes um fino

Queria aprender a cantar
Passar mal de gargalhar
Queria uma que me amasse
E que a vida não acabasse.

03/05/2009 by michelccc

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28/04/2009 by michelccc

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Guaecá

22/04/2009 by michelccc

Espelho – João Nogueira

17/04/2009 by michelccc

na boca da noite
lá no cú do mundo
pé na estrada cara
bate um dedo de prosa
fuma um dedo do macaco
vai até a peida
na contra mão
no pêlo mesmo
você tem as costas quentes
mas não tem olho nas costas
uma perna só e você tá lá
vai de coração
e ganha por um nariz.